A “inveja” do papá

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Pode até parecer uma parvoíce ou mesmo um sentimento menor, mas estou certo que não serei certamente o único a senti-lo, a pensá-lo, a escrevê-lo: tenho inveja da minha mulher! É isto. Tenho mesmo. Tenho, porque ao contrário dela, eu não sinto nada! Nem um ai. E a danada da miúda nem sequer ao menos se mostra sensível ao facto do pai não passar tempo de qualidade com ela e quando jogo as mãos à barriga da Ana para tentar sentir qualquer coisa que seja… ela evapora-se, salvo seja, e não esboça um movimento sequer para mostrar ao pai que está ali para as curvas… nada! É para mim uma incógnita enorme e até sinónimo de uma ligeira frustração. Está para aqui o pai a tentar criar laços afectivos robustos e a miúda… nem ai, nem ui, é para o lado que melhor dorme.

Todas as noites, quando me deito, deito-lhe também uma das mãos à barriga na esperança crédula e quase religiosa de sentir qualquer coisa que seja, um pé, uma mão, a cabeça, nem sei bem o que é que hei-de procurar, mas fico ali, imóvel, deitado, sem fazer qualquer tipo de barulho, com os músculos hirtos e irrepreensivelmente quietos, deixo os ouvidos descerem lentamente até à palma da mão poisada ao de leve na barriga da Ana, à espera, pacientemente à espera que a minha filha se aperceba do meu gesto e venha ao encontro da minha mão. Primeira dificuldade. Como posso eu ter a certeza de que ela sequer sente que está ali uma mão? Com tudo isto chegam a passar-se dez a quinze minutos em que quase não respiro, tão pouco sequer me mexo, com medo de que o mais pequeno som me distraia do objectivo e que ela perceba que eu me distraio e aproveite para se mexer nesse entretanto. Estás a divagar já, dorme mas é e deixa lá a miúda e a barriga em paz. Achas que isto tem algum jeito? Tens tempo de sobra para sentir a pequenita, faltam quatro meses, 120 noites, achas que não vais ter tempo suficiente para sentir pontapés e murros e cabeçadas e joelhadas e cotoveladas? Dorme mas é. Mas não é tão fácil assim. Parte de mim não deixa de sentir uma ligeira invejazinha da mamã… Não que me apeteça andar com a bebé na barriga, mas de facto só assim se pode explicar a ligação transcendente e inexplicável que une uma mãe a um(a) filho/a.

Depois há um brilho extra na cara da minha mulher. Ela já é absolutamente deslumbrante e magnífica, linda que só Deus sabe e radiante, mas de há cerca de 1 mês a esta parte está cada vez mais bonita. Parece que se encheu o balão da auto-confiança e da consciência de si mesma e anda, ou melhor, desfila por onde quer que vá com uma singular beleza. Chego a vê-a a caminhar em câmara lenta e fico ali assim, parado, no corredor das massas, a vê-la andar com a nobreza de quem tem o rei na barriga, neste caso, a rainha! 

É uma inveja que não morde nem chateia ninguém. Por isso é deixá-la ficar no seu sítio que também serve para me fazer perceber que o melhor da minha vida está mesmo ao meu lado, diante dos meus olhos, ao alcance da minha mão. Tantas vezes se perde todo o tempo que temos à procura da razão que nos justifica o acordar, quando, não menos vezes essa razão está à distância de um olhar. Nunca estive tão feliz. E na verdade deve existir pouca coisa como a sensação incrível de se preparar a chegada de um primeiro filho. É, com toda a certeza, um sentimento irrepetível e inesgotável, daqueles que valia a pena congelar para voltar a sentir mais tarde. Mas não dá. Escrevo sobre ele para que mais tarde, bem mais tarde, quando as memórias me falharem, me possa socorrer da cábula e voltar a tudo isto que hoje sinto, com o esforço simples e doce da leitura.

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