A minha mulher tem ouvido com cada coisa…!

Creio que não restarão dúvidas a ninguém de que a gravidez é, – ou deve ser – de facto, um período extraordinariamente abençoado onde o amor, a magia, o carinho, a alegria, a felicidade e tanto mais são sentimentos que se estendem numa perpetuação quase diária de existência.
Com o passar dos dias vamos aprendendo a conviver com a constante sensação de leveza e de comoção, aqui e ali pautada por laivos de anormalidade em forma de conversa parva, mas já lá vamos. Dizia que a gravidez é absolutamente maravilhosa. Ainda hoje a Ana me dizia que vai ter muitas saudades de estar grávida, que é de facto uma experiência incrivelmente única e que para elas, mulheres, deve ser porventura um acontecimento que as marca até à profundeza mais longínqua das entranhas. 

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Contudo, porque não há bela sem senão, há também coisas extremamente desagradáveis. Para o meu lado não chove. Não chove essencialmente porque sou… homem, pai, marido, mas sobretudo porque o meu belo e adonisado corpo não tem sofrido qualquer deformação, não se transformou, não cresceu, alargou, inchou, moldou-se, engordou, esticou, mudou de cor, de consistência, de tamanho, para depois reverter tudo no final… ou não. 

Continuo a conseguir ver os dedos dos pés e tudo o que de mais vem por aí acima, quando olho para baixo, claro está. 

A bênção divina da maternidade é exclusiva das mulheres, razão pela qual os homens não fazem ideia do turbilhão emotivo que ganha força dentro das suas mulheres/namoradas/companheiras, mas certo é e comprovado está que a crueldade da suposta sinceridade humana parece ter sido “criada” justamente para ser usada nos momentos mais inoportunos, servindo-se das afirmações, opiniões e aberrações mais criativas que Deus ao mundo deitou. 

Estou certo de que esta prática é ancestral. Cultural. Com a particularidade de ser uma prática corrente, corriqueira, socialmente aceite, mas tão estupidamente cruel e parva como ridícula. Perdoem-me a violência mas quem ouve as histórias e reclamações da minha mulher grávida sou eu, e acreditem que não me considero um tipo impressionável, e frequentemente sou até acusado de dar sempre o benefício da dúvida às pessoas, mas neste assunto e em particular neste momento da nossa vida, não consigo ficar de dedos entrelaçados e não escrever sobre o tema, visto que está que o mesmo me perturba.

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Senhoras e senhores, ouvi-me com atenção:
Dirijo-me primeiramente às senhoras porque são elas, na sua grande maioria, as principais responsáveis pelas situações que passarei a descrever.
Proponho então que me permitam que vos conte alguns dos episódios que me têm sido contados pela minha adorada esposa.
Optei por transformar tudo isto em narrativas curtas para que seja mais fácil de se perceber a bandalheira que pr’áqui vai:

Situação 1.
Está a rapariga a entrar no trabalho, ainda vem no corredor, há alguém que pára ao fundo, deixa-a aproximar-se e, quando já está somente a cerca de 10 metros de distância diz: “Olha, lá vai a grande! Estás cada vez maior!”
Há que ter a grandiosidade de espírito necessária para ser capaz de reconhecer que não é toda a gente que consegue ser tão “eloquente” e “perspicaz” em apenas 9 palavras. Mas adiante, que, como se costuma dizer, ainda a procissão vai no adro

Situação 2
Os típicos comentários tremendamente entendidos de quem nunca foi mãe/pai, mas que se acham profundos entendidos na matéria: “Ahhh, estás de quanto tempo? 4 meses? Não se nota nada, a barriga é tão pequena!”.

Situação 3
Não me posso esquecer que acontece também a situação exactamente oposta à anterior: “5 meses?? Agora já se nota bem que as tuas pernas estão a ficar mais gordas!”, ou ainda: “Estás a ficar bolachuda na cara”.

Situação 4 
E também há esta: “Estás mesmo com cara de grávida… mais redonda, oval quase!”… E depois tentam dar aquele toque de simpatia, de quem percebe que já enfiou os pés em 2 metros cúbicos de cocó: “Mas estás tão gira…!” 

Tenho dado por mim a tentar perceber o que motiva este tipo de comentários, de dizeres, de opiniões que não são pedidas, solicitadas, pretendidas ou desejadas… E ainda não consegui chegar a grandes conclusões.
É que isto é muito giro andar a dizer coisas destas a uma mulher em fase de crescimento, mas depois, depois quem tem de escutar atentamente as lamurias e desilusões, as tristezas e preocupações, as maldades e provocações… não, não é o Camões… Sou eu.
Por isso, exactamente por isso, deixo-vos esta pergunta:
Acham mesmo que se justifica?

Se me permitem, o conselho e pedido que vos faço para os momentos em que não têm absolutamente nada para dizer a uma mulher grávida é o seguinte:

– Senhoras e senhores… se fizerem o obséquio, boquinha fechada, sim?! Isso… Schhhhht… ca-lu-da! Pode ser?

Guardem as pérolas de simpatia para uma prima, ou uma tia, ou melhor ainda, não digam absolutamente nada!  Quantas vezes vale mais o silêncio do que as alarvidades saídas de uma boca escancarada. Pode ser? A gerência agradece. Passar bem!

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