O Pai já vai, sim?

Trabalho muito, muitas horas seguidas por vezes, até horas da noite em que um homem já devia estar em casa há muito, com a sua família. Que se perceba desde já que não estou a queixar-me, estou simplesmente a descrever um facto, uma realidade, um acontecimento de fácil verificabilidade e que corresponde unicamente à realidade da maioria dos meus dias. (Bem sei que não é nada agradável começar um texto num blog desta natureza a falar sobre trabalho… peço-vos que me perdoem mas precisava de criar aqui uma ligação ao que se segue) 

Pois portanto, até aqui tudo bem, cada um tem o trabalho que tem, faz aquilo que faz e é quase imperativo ter de saber viver – de forma mais ou menos pacífica ou da melhor forma possível – com a ocupação que escolhemos ou com a profissão pela qual nos deixámos apanhar.
Pois bem, caso não tenham ainda reparado, essa aprendizagem leva tempo, bastante tempo até, é morosa, custosa, mas de uma utilidade tremenda. Poder-se-á até dizer que a mesma é decisiva para a forma como estabelecemos o equilíbrio entre aquilo que é a vida no trabalho e o trabalho que dá cuidar de uma vida.

A Ana está em casa há mês e meio e confesso-vos que as noites de trabalho são cada vez mais dolorosas. Não que já não o fossem antes de ela estar grávida, nada disso, até porque os nossos horários são desfasados desde o dia em que nos conhecemos, mas porque estando grávida e com uma barriga cada vez maior sinto que ela precisa cada vez mais de mim e eu… não estou.

Não é nenhuma tragédia, evidentemente que não, mas quem passa por isto deve conseguir perceber o que quero dizer. Contudo, em abono da verdade, é preciso dizer que passo os dias envolto numa espécie de levitação mental. Passo os dias a imaginar, a sonhar, a antever, a fazer planos a médio e longo prazo, a traçar rotas, a definir sítios para passear, para brincar, parques onde ir, histórias para contar, livros para ler, coisas para ensinar… São dias recheados de pensamentos, de dúvidas, de ansiedade. E a sacana da ansiedade dá-me conta da existência… 

Não faço ideia do rumo que vai levar a minha vida profissional (algo que deve ser tremendamente comum a maioria dos homens da minha idade).
Não, não é uma frase feita, nem tão pouco um lamento que também não sou cá pessoa de me lamuriar, é sim uma incerteza que me faz somente não saber como vai ser a minha relação com as horas do dia e da noite daqui para a frente… sem que daí resulte qualquer problema, evidentemente.
Por agora, ainda com a Leonor na barriga da mamã, a “pressa” de vir para casa prende-se com a vontade cega de querer acompanhar os pontapés, os murros, as cotoveladas, de querer estar disponível para ajudar a Ana que já começa a ter dificuldades em fazer certas coisas – pudera com uma barriga daquele tamanho eu nem me mexia – em casa, mas o que será de mim quando forem horas de ler a história antes de dormir, de fazer os trabalhos de casa, quando ela acordar com pesadelos, ou o fim de um namoro (nããããããããooooooo!!!!!)? Não te distraias homem, não vês que ainda é muito cedo para isso? Para já ainda vais ter de passar pelas noites sem dormir, pelo bolsar, pelas papas, pelas birras, o gatinhar, as primeiras palavras, as primeiras quedas e o levantar-se depois delas, os biberões, as fraldas, as chuchas, xixis e cocós, ganchinhos, fitinhas… não achas que são já coisas suficientes para te entreteres papá? Bem me quer parecer que sim. 

Por agora a preocupação prende-se com o facto de a “mamã” (cá estou já a subtrair-lhe a identidade para que se comece já a habituar) já andar a dormir menos bem, ter dores nas costas (a que o marido acode diariamente com massagens circulares com as pontas dos dedos…) e estar novamente constipada! Pelo caminho… já chegámos às 30 semanas… 30 semanas! Minha Nossa Senhora, significa isto que faltam apenas… 2 meses… Oh my Goggui (sim, a minha afilhada chama isto a Deus Nosso Senhor)! 

Faltam apenas dois meses para passar a ser o pai da Maria Leonor, para perder o nome em alguns sítios, em particular na Creche/Jardim de Infância para onde ela for… e para passar a ser um dos homens mais felizes que passeiam o esqueleto pelo magnífico e maravilhoso planeta em que vivemos.
Melhor que tudo isso só mesmo a certeza de que, comigo, ao meu lado, a viver intensamente cada dia, cada semana, cada mês, cada ano, tenho a mais fantástica das mulheres, o mais lindo dos seres humanos, a maior prova de boa vontade de Deus para com a minha pessoa. Tenho a Ana e isso meus senhores e minhas senhoras, é melhor do que tudo o que eu alguma vez podia ter pedido para esta existência ligeiramente atormentada, mas extremamente apaixonada. Não tem preço. Não tem mesmo! Quanto a mim, vou almoçar porque depois tenho de ir trabalhar… Já volto, sim? O pai já vai.

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