Agora (sim) somos três!

Julgo que não andarei muito longe da verdade se vos disser que a escrita – refiro-me a actividade física e mental no seu estado mais puro – é uma das grandes paixões (não físicas) da minha “atormentada” existência e, como tal, como qualquer escritor digno de assim se poder auto proclamar, passo grande parte do meu tempo a tentar descodificar e decompor a minha vida recorrendo às palavras e à arte que vive secretamente por trás da mestria que requer a sua combinação. Combino então a vocação e paixão com o mais simples dos ingredientes, e que é o simples propósito que norteia toda a minha escrita: conseguir uma aproximação o mais próxima e fidedigna que me for possível a tudo aquilo que vou vendo, vivendo e imaginando, e que na minha modesta opinião, possa acrescentar qualquer coisa à vida de quem tem a coragem, a grandeza de espírito e, sobretudo, a possibilidade de gastar o seu precioso tempo a ler as vertigens emocionadas do meu pensamento.
Ora, arrumada que está a introdução, prossigamos então para o acontecimento que aqui me traz. 

image

Não estarei de modo algum a exagerar se vos disser que nos últimos dias, a minha vida sofreu uma espécie de abalo sísmico de magnitude 15 na escala de Richter, ou, se preferirem uma imagem mais bruta, parece que fui atropelado de frente por uma caravana de tanques de guerra russos.
Ora, traduzindo isto por miúdos, quero com isto dizer que presenciei O acontecimento mais marcante que qualquer ser humano pode ter a sorte de assistir na curta passagem por este planeta, e a que tão simpaticamente alguém um dia resolveu chamar vida; o que é o mesmo que dizer que fui pai pela primeira vez!! Não tenho corpo suficiente para tanto sentimento!!! 
E não fui pai de uma criança qualquer… Fui sim pai de uma menina incrivelmente bonita e perfeitinha (aqui está a presença inefável e inegável deste vírus que ataca e afecta o discernimento da grande maioria dos pais) e é exactamente sobre isso que vos venho hoje aqui falar, no dia em que se assinala a primeira semana de vida da minha filha. 

image

Mas vamos por partes, a fim de estabelecermos aqui um encadeamento cronológico:

Então, casámos em Julho do ano passado. Foi um dia incrível!

image

A lua-de-mel foi absolutamente maravilhosa!! Passámos o ano inteiro a falar dela! Pudera, Nova Iorque, Madrid e Sardenha, em 19 dias, é coisa para dar a volta à cabeça de qualquer ser humano.

image
image

Em Setembro descobrimos que íamos ser pais, precisamente no dia dos anos da Ana, dois meses e meio depois de termos casado (naquele que até aquela data tinha sido seguramente o dia mais feliz das nossas vidas!).
Seguiram-se então 9 meses de paixão pura, virginal, celestial. Nove meses de preparação, de aprendizagem, de expectativa, de construção e edificação, de muito mas muito mesmo amor e ternura, companheirismo e patetices, jantares a dois e, a pouco e pouco, jantares a três. A Ana deixou de beber bebidas alcoólicas, e eu passei a emborcar sozinho. E não, não tem assim muita piada virar garrafas de vinho sozinho, diante de uma pessoa que não pode beber. 
Voltando aos 9 meses da gravidez, foi um tempo incrivelmente bem passado onde, mais do que tudo, aproveitámos para crescer em conjunto, enquanto casal recém casado. Ajudámo-nos, edificámo-nos, divertimo-nos e… foi óptimo! Mas mais do que qualquer outra coisa, foram sim 9 meses de adoração de uma barriguinha que a pouco e pouco se foi transformando numa… barrigona!!

image
image
image
image

Amei cada dia desta gravidez…
Pronto, está bem… estou a mentir… com todos os dentes que tenho na boca! O dia do parto teve (várias) partes que dificilmente esquecerei… e não é pelos melhores motivos.
Foi (muito, mas muito) duro. É duro. E torna-se tanto mais duro quanto mais tempo a vossa mulher estiver em trabalho de parto.
A minha passou 20 horas “naquilo”… as últimas três já na sala onde (supostamente) nasceria a bebé, a recorrer a todas as forças existentes em cada centímetro quadrado de músculo que tinha no corpo, isto no meio de um sofrimento e de um esgotamento físico que nunca lhe tinha conhecido, uma coisa impressionante, não recomendável a pessoas impressionáveis.
Costuma dizer-se que os olhos são o espelho da alma e que neles tudo se vê, ora, nos olhos da Ana via-se a dor e o sofrimento escondidos por trás daquela força incomparável e daquela capacidade de luta e de abnegação que a definem enquanto ser humano.
É das pessoas mais corajosas que alguma vez tive a honra de conhecer. 
E aguentou! Aguentou até à última, até ao momento em que mesmo já sem forças e com o cérebro a atraiçoá-la e a dizer-lhe que parasse, conseguiu continuar a tentar fazer a filha nascer. Só que depois foi a pequenina quem se cansou e disse: 
 – Para mim chega! Não avanço nem mais um centímetro. Querem assim tanto que eu saia, pois está visto, ora então… venham cá buscar-me dentro e é se querem, que eu daqui não passo! Ainda fico prá’qui toda tortinha e eu quero chegar bem direitinha ao colinho dos papás que estão há meses à minha espera. Por isso, vamos lá a andar com isso se fazem favor, antes que eu me enerve.”
E assim se chegou à decisão final:
– Bom, vamos ter de avançar para cesariana! (isto depois de ter sido equacionado o recurso a fórceps…)
– Cesariana, doutor? Perguntei eu alarmado e subitamente acometido de uma sensação de frustração estranhamente esmagadora, de quem esteve tantas horas na “luta” e de repente, sem apelo nem agravo, sem dó nem piedade, se vê afastado do nascimento da filha…

– Claro que sim doutor, disse a Ana, nós somos apenas jornalistas… vocês é que sabem o que é melhor! E lá fui eu… de volta à casa da partida sem receber 10€… 
Depois foi esperar, esperar, esperar, esperar, até que uma das médicas resolveu aparecer na entrada da Urgência e, de iPhone em punho, me mostrar a cara da minha filha. Tive de me encostar. A sensação é avassaladora! Foram toneladas que senti no peito, mas toneladas do melhor peso que me esmagou em toda a minha vida. Uma sensação de felicidade que não conhece comparação com nada que tenha vivido alguma vez na vida. As lágrimas galgaram a cerca dos olhos e correram como água de um rio pela cara abaixo. Família, amigos, telefone a tocar, perplexidade total perante a notícia mais esperada de sempre… 

Não conseguia acreditar na perfeição daquele pequeno ser que estava prestes a conhecer. Depois de tudo o que passei nesta vida… isto é a mais justa e incrível recompensa! 

image

Uma semana depois digo-vos que sim, que é tudo verdade: dorme-se mal, fica-se com um ar parvo e apatetado, acha-se graça a tudo o que ela faz, ao som mais pequeno, aos guinchos, aos gemidos, ao choro, às caretas, ao olhar, e nem a Icterícia nos desanima. Voltei a saltar da cama que nem uma mola. Voltei a deitar-me na cama antes da 1 da manhã, mas sou hoje feliz como nunca julguei possível. E ainda agora começou a aventura.
Mas Agora (sim) Somos Três e agora sim tudo faz verdadeiramente sentido.

Disse o srº Pessoa que “para ser grande, sê inteiro”… agora percebo a total dimensão desta frase que nunca esqueci e que adoptei para lema de vida! Agora sim estou inteiro! Agora sim sinto-me verdadeiramente um homem!
E o tempo, o tempo agora é nosso, de e para Nós os Três!

image

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s