Análise assumidamente emotiva do primeiro mês de creche

Pois é. Vou cair na patetice de recorrer a um cliché mais velho que o cair de costas mas… tem mesmo de ser: “Ai como o tempo passa a voar!”. Pronto. É essencialmente aqui que se centra o problema, e é precisamente por isso que se justifica inteiramente esta análise assumidamente emotiva do primeiro mês de creche.

Queria introduzir o tema sem me alongar em demasia e, de preferência, com alguma leveza, ou melhor, com a leveza que o tema me permite ter. Passada esta primeira fase menos interessante do texto vamos então ao que aqui me traz. A análise ao primeiro mês de creche.

Calhou estarmos em casa nos primeiros dias. Ou melhor, não calhou, a Ana estava de férias e eu estava a gozar o período de licença de paternidade. Foi exactamente por causa dessa feliz conjugação que aproveitámos para fazer uma adaptação gradual à creche. A bebé estava com quase 5 meses (credo!! que pequenina que ela ainda é) e, em conjunto com a Educadora, chegámos à conclusão simples de que a melhor coisa a fazer seria então optar por uma integração gradual e faseada num ambiente totalmente novo e desconhecido. Uma realidade bem diferente daquela que ela tinha encontrado durante os primeiros 4 meses da sua ainda curta mas já tão preenchida vida.

Tratámos de comprar tudo o que era preciso comprar para que ela pudesse então dar início a uma etapa tão importante, única e especial na sua vida.

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Não vos esconderei nada, pelo que começo já por vos dizer que não é fácil! Não é mesmo nada fácil! Enganem-se os pais e mães que estão à espera de passar por este processo com asas de anjo e passando alegremente nos intervalos dos pingos da chuva. Nada pode estar mais longe da realidade.
Vão sofrer! Vão sofrer e preparem-se (seja lá como for que isso se faz) porque vai doer! Ai vai, vai. E dói de forma muito diferente a cada um dos envolvidos neste processo. Não acreditam? Então vejamos:

A Ana mal conseguiu dormir nos 3 ou 4 dias que antecederam O dia dos dias, o “primeiro dia do resto da tua vida”, minha filha. Da tua e da nossa.

Eu dormi, até porque pouca coisa me tira o sono (a não ser os guinchinhos de uma certa bebé, durante a noite, a reclamar com o mundo porque deixou cair a chucha e agora não a encontra) nesta vida.

No primeiro dia deixámo-la lá durante 1h30. Fomos fazer umas coisas que tiínhamos para fazer, aproveitámos para ir às compras, tentámos não falar muito sobre o assunto e assim o tempo lá passou, e voou. Um pequeno À parte para dizer que é incrível a forma como a ausência, a sensação de vazio se apodera das mães neste momento. Parecem perdidas, deslocadas, amputadas de uma parte fundamental do seu viver. Chega a ser verdadeiramente impressionante. Quase bíblico.

A Ana diz que não consegue encontrar uma explicação muito racional para o que sente. Eu digo-lhe que nem sequer precisa de se esforçar para o fazer. Que é suposto ser assim. Que é muito bonito assistir a tudo isto. Assistir a esta primeira fase de desprendimento faz-nos ver a vida com outra clareza. Faz-nos perceber a natureza quase absoluta da relação de uma mãe com a sua filha recém-nascida. E é um privilégio que não trocava por nada desta vida.

Claro que a mamã saiu da creche a chorar. Mesmo sabendo que dali a pouco mais de 1h30 estaria de volta, não conseguiu conter as lágrimas que trocavam por miúdos a multiplicidade inexplicável e inquantificável de sentimentos que lhe escorriam pela cara abaixo. O cérebro bloqueia a razão, o discernimento, a própria inteligência e leva-as (e a nós também, de outra forma, mas também) ao estado mais puro e virgem do amor materno. É incrível, na verdade. Um espectáculo que com certeza ficará gravado para todo o sempre na minha mente.

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Depois, com o passar dos dias, foi aumentando o tempo de permanência na creche. O aumento foi proporcional ao aumento do nosso sofrimento. Eram já 3 horas, 4 horas, “tempo demais” longe do tesouro mais precioso que temos na vida.

Olhem que eu sou Educador de Infância de formação, sei os porquês das coisas, sei as razões pelas quais se fazem as coisas, mas não consigo ainda lidar muito bem com o momento da entrega da minha filha nas mãos da Educadora e/ou da Auxiliar. Não consigo precisar-vos porque é que não consigo, mas efectivamente não consigo. Fiz este vídeo para tentar explicar o que sentia, imediatamente depois de a ter deixado, há cerca de 2 semanas.

Ela está a crescer a olhos vistos. Tem-se adaptado lindamente. Come e dorme maravilhosamente. Desde os 2 meses que nos dá a sorte de dormir a noite toda. Não nos desejem mal, mas a bebé chega a deitar-se às 20:00 e só acorda às 05:00 do dia seguinte. (Verdade. Sim, sabemos bem a sorte que temos!) Ri-se muito, brinca bastante, é malandra, mimada, querida, doce, meiga, feliz! É uma criança muito feliz. E ter a certeza disso faz de nós pais igualmente muito felizes. Descansados. Motivados. Encorajados. Certos (na grande maioria das vezes) de que estamos a seguir o caminho certo, mesmo que esse caminho seja, não poucas vezes, bastante difícil de percorrer.

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O resto. O resto é tempo. E esse – como disse no início, mesmo tendo a certeza de que estou a cair num lugar comum – voa. Rápida e vertiginosamente. A nossa pequenina está quase com 6 meses e nós estamos incrivelmente maravilhados com tudo isto. Sim. Vai doer mais. Vai tornar-se mais complicado. Vai tornar-se mais difícil. As rotinas são isso mesmo. São difíceis de apreender mas depois de se estranhar, acabamos por as entranhar na alma.

A todos os que estão a passar, ou ainda vão passar por isto, deixamo-vos um abraço de solidariedade e coragem. Não é a pior coisa do mundo, claro que não, que disparate, mas custa. Dói. É real a dor que se sente. Não dá para fingir ou esconder uma dor assim. Mas todo este desprendimento faz crescer em nós um sentimento de que nos orgulhamos tanto neste país: a saudade. E não há nada melhor do que chegar a casa cheio de saudades e encontrarmos aquelas coisinhas pequeninas, de sorriso aberto, a esconderem a cara de alegria, felizes pelo simples facto de existirem no seio de uma família que os ama mais do que a qualquer outra coisa que viva neste mundo.

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Sejam felizes! Sejam muito felizes e agradecidos! E depois aproveitem os dias, as horas, as semanas, os meses. É que já, já, num instantinho mais curto que a duração de um sonho eles começam a crescer, e depois, depois deixam de ser nossos para passarem a ser deste mundo e do outro. Do mundo que escolherem para viver.

Ass: o pai.

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