Amor de pai também é único, se é, minha querida filha

Está a crescer. Está a crescer tremenda e exponencialmente. Está a crescer de de uma forma que me esmaga e me faz engasgar quando nela penso, quando nela falo, ou quando simplesmente não estou a fazer nenhuma das coisas.

Este sentimento cresce proporcionalmente à razão de tantos sentimentos novos descobertos na vertigem de cada dia que passa, e tudo isto a passar por mim com a velocidade incrível dos cometas que já só vemos de raspão.
São já coisas de dimensão incompreensível e para as quais não me atrevo sequer a tentar arranjar nomes, etiquetas, ou mesmo palavras vãs que sirvam tão somente para a frustrante e frustrada tentativa de qualificar aquilo que é completamente inqualificável. A naturalidade natural de um amor desta natureza. Ainda assim, e porque as coisas inqualificáveis são uma espécie de especialidade da casa, vou atrever-me a tentar ir mais longe do que aquilo que o meu fraco pensamento consegue, neste momento, alcançar.

Cá vou eu. De cabeça, sem braçadeiras nem pato de borracha à cintura, tentar explicar-vos o que sente um pai. Ou melhor, o que sente este “pobre” pai perdido de amores.

É esmagador. É, sim.
É entorpecedor. É, sim.
É dilacerante. É sim.
É e chega a parecer que é dor todo este amor que se sente.
É, e chega, sim, chega mesmo a doer ali algures entre o peito e a barriga. E dói de formas que não se percebem ou justificam. De formas que não se compreendem nem fazem parte da carteira de coisas que um homem sente antes de chegar a este estádio da sua vida.

De há quase 3 meses a esta parte que durmo de ouvido praticamente colado ao intercomunicador. A luzinha verde que mostra que está a funcionar e que está perfeitamente emparelhado com o emissor, estrategicamente colocado junto aos pés da tua cama, é já uma espécie de companhia que chega para me empurrar para o descanso. Uma espécie de contador electrónico de carneiros, um João Pestana ligado à ficha, por assim dizer.
E é assim que ali fico, deitado ao lado da tua mãe, que invariavelmente adormece sempre primeiro, coitadinha. O cansaço é muito.
Passou a ser assim o desenrolar normal das minhas noites, isto desde o dia, ou melhor, da noite, em que pegaste nas suas trouxinhas e foste dormir para o teu próprio quarto. Como estás a crescer assustadoramente depressa.

Dizia que passei então a ter uma espécie de sono vigilante e desinquietação constante dentro de um coração (ligeiramente) desassossegado, que se apoquenta enquanto a noite não se finda e não raiam os primeiros laivos de sol, na manhã já fresca deste principiar de Outono que já teve o sabor do Verão, e que agora se aninha a nós com a sua tão típica frieza em tons de cinza com que se pinta sempre o Inverno, e muitos dos dias que o antecedem.

Tenho e sinto no peito uma fortíssima sensação de vazio quando tenho de te deixar durante horas para vir trabalhar. Ser pai é ser mais forte, é ser homem, e logo eu que até tenho a barba rija e ruiva, mas é também ter de parecer forte, mesmo quando te escangalhas em pedaços que se mantêm perto uns dos outros para poderem ser facilmente colados quando para isso houver tempo.

Saio de casa e venho acompanhado de toda a miríade de cheiros e odores que trouxeste para esta nossa vida.
Saio e vou invariavelmente a sorrir ao volante, lembrando-me dos teus sons, de como estavas bonita esta manhã, de como me fartei de rir quando te fui arranjar para te levar, ou da chafurdice que fazes para comer a papa ao pequeno-almoço, sempre com esse sorriso maroto e magnético que a genética se encarregou de transportar para essa linda e maravilhosa expressão facial com que Deus te brindou.

Não vou alongar-me muito até porque, acreditem ou não, este é um tema que ainda me provoca travagens bruscas nos dedos em cima do teclado. Ainda não se cruzam as ideias e os sentimentos de forma tão fácil que facilite a sua tradução para o admirável mundo da palavra posta por escrito. E por isso é isto. Está dito. E é tão bonito. Repito. É (tudo) tão bonito.

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