Os médicos e as suas (reduzidas) capacidades de comunicação

O texto de hoje é inteiramente parcial e remeter-vos-à para uma ligeira indignação, totalmente justificada e fundamentada, mas muito própria de pais de primeira viagem. Isto é, inseguros, inexperientes, cautelosos e assustados q.b. Ora então vejamos:

A tarde da última segunda-feira foi passada por inteiro no Hospital da Luz, em Lisboa. Calma, está tudo bem. O papá e a mamã estão de perfeita saúde (com excepção de mais uma noite tremendamente mal dormida) e cheios de energia para continuar a partilhar episódios desta nossa mundana mas divertidíssima existência. Infelizmente, o problema foi mesmo com a pequenina.

Desde o final da semana anterior que uma razia de bronqueolites e outras coisas que tais varreu a sala do infectário, perdão, da Creche da nossa menina.

Resultado prático da coisa: Quinta-feira estiveram 2 meninos na Creche, com a nossa incluída, e na sexta-feira a Leonor teve a sala toda só para ela. Foi um fartote.

Fui eu que a fui levar e quando cheguei ao cimo da escada que dá para o hall comum às duas salas de creche, qual não é o meu espanto quando, ao olhar para o cabide da sala dela, não vi um único casaco, mochila, manta, ovo, absoluta e redondamente nada.

E eu: “Queres ver que isto vai dar molho?”

E a Leonor: “bahhhh!! dahh! da!!”

E eu: “Pois é filha, estás por tua conta hoje. Que sorte! Já viste?!”

E a Leonor: “a da da. Da da dada!”

E eu: “Ficas sozinha com a Beta. Que sortudo filha!

E ela: “aosuhdweiued” = qualquer coisa que não faço a mínima ideia do que significa mas que, trocando por miúdos e terminando num daqueles seus sorrisos, percebi que não era coisa que a atormentasse por aí além.

Sábado e Domingo estive eu em casa durante a manhã/princípio de tarde com a pequenina, já que a mamã foi trabalhar bem cedinho, e a tosse começou a piorar, bem como a obstrucção evidente das vias respiratórias. Tubos e tubos de soro fisiológico depois e ela continuava na mesma, sim, exactamente, como a lesma.

Segunda-feira de manhã saí de casa para ir trabalhar deviam ser umas 7:20.
Antes de sair, como faço sempre, fui dar-lhe um beijinho na testa e senti-a já ligeiramente quente… mas, ainda assim, acabei por relevar. (achamos sempre que nunca nos toca a nós, ou pelo menos queremos achar, acreditar, que não vai ser nada.)

A meio da manhã, percebi pelas palavras da Ana que a coisa não estava nada fácil. Teve de ir buscar a bebé à Creche, uma vez que a febre já estava nos 38,5ºC e acabou toda vomitada, ela e a auxiliar. Enfim, Tudo a correr bem. E eu sentado ao computador em Paço de Arcos.

Falei com o meu “chefe”. Abandonei de imediato o “posto” e vim para casa a… andar ligeiramente mais depressa do que aquilo permitem os limites legais de velocidade na CREL…

Ainda tentámos ver como estavam as urgências do HBA mas… esqueçam, foi chegar e dar meia volta nos calcanhares, corda nos sapatos e voltar para de onde quer que tivéssemos saído. Só havia lugares de pé, e encostados à parede, ou à máquina de café. A sala de espera da urgência pediátrica é sofrível de tão pequena. E devíamos ter cerca de 30 pessoas à frente. Eram 12:30.

Decisão unânime e tomada só com os meus olhos à conversa com os da Ana. Vamos para Lisboa. E lá fomos. Ainda tentámos que o Pediatra a visse, mas o pobre homem tem tanto trabalho que a nossa espera de 1 hora foi completamente em vão. Lá fomos resignados para a Urgência. 3 horas depois fomos atendidos. Até aqui tudo bem. A coisa ficou ligeiramente tensa quando a médica que nos atendeu lhe começa a apalpar a moleirinha com insistência e sinais de dúvida, fazendo aquelas considerações médicas típicas daquilo que eles fazem da vida, comentando com a estagiária que estava presente que poderia ser isto, ou aquilo, ou otite, ou, acoloutro, ou meningite… exacto.

Ana e Martim: Desculpe? Disse Meningite?

Médica: Sim Mas os sinais gerais parecem-me muito bons. Não há prostração. Não há moleza. Há um estado geral de boa disposição e vivacidade. Mas ainda assim a moleirinha…

Obviamente que ficámos presos na Meningite. Foi o “ruído” que nos costuma fazer perder o fio à meada numa peça jornalística, num texto, num livro, numa cena romântica. Aquela palavra fora do contexto geral da frase e do que estávamos ali a fazer.

Soou mais ou menos assim:

Médica: “Pode ser meningite. Blá, blá, blá… wrfWEHRF, jkdkjas… fskdfal… quadro geral… qehasd bla bla bla… erfukjl hasdasda… Otorrino, lá em baixo. Depois voltam cá acima.”

E lá fomos nós…

Ana e Martim: “Meningite? Está doida! Só pode estar a gozar…”

E foi precisamente isto que me fez vir para aqui escrever sobre o tema.

Continua a ser inacreditável a falta de tacto e de sensibilidade que muitos dos profissionais de saúde demonstram para com gente que está cansada, assustada, com uma bebé de 6 meses nos braços, depois de 4 horas enfiados no hospital. Não pode ser. Não pode, de todo, ser compreensível, aceitável e visto como natural ou normal. Bem sei que há coisas que não se ensinam, não se treinam ou educam. São inatas. Se a vontade de salvar vidas, de ajudar os outros, os levou a tantos anos de estudo, de aprendizagem, pestanas queimadas, conceitos, teorias, correntes, livros e mais livros, horas e horas de estudo e noites mal dormidas, como será possível que não aprendam a fazer o mais básico: comunicar com os seres humanos que os procuram?!

Não consigo compreender. Não é a primeira e não vai ser a última vez. É certo. Mas não deixa de ser preocupante que isto se passe diariamente. Que, numa era em que a comunicação é tão frenética, tão constante, tão fundamental na definição do que é e do que deixa ser, do que foi e do que pode vir a ser, a comunicação entre nós e aqueles (curiosamente) nos podem ajudar, sejam tão maus com as palavras. E sim, acredito que têm de aprender a falar. Porque se trabalhas com pessoas e para pessoas, é do mais básico e elementar saber que tens de saber falar com… as pessoas! Parece simples, mas de simples tem muito pouco. Talvez mude. Talvez não. Da próxima tenho de lhe comunicar que não gostei. Boa semana a todos.

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