Sim, sou pai há quase 9 meses e já me zanguei com a minha filha…

… mas lidar com o que vem depois não é fácil. Não é, de todo.
Há momentos em que perdemos a paciência e nos deixamos levar por impulsos de intolerância que, regra geral, nem sequer sabemos porque acontecem de determinada forma. A muitos de nós interessa, porventura, encontrar a razão pela qual não fomos capazes de manter a calma e a compostura e reagimos daquela forma. Só que, regra geral, esses momentos de reflexão tão necessários e importantes acabam diluídos depois no corre-corre dos dias e não se volta a falar do que se passou. A coisa morre, até à próxima vez.

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Era de manhã. Cedo. Bem cedo, como de costume. Cenário comum a todas as vezes em que me “zanguei” com a Leonor.
Eu,
ali sentado na cadeira da mesa da cozinha, no lugar onde habitualmente me
sento para comer, só que virado de esguelha para a mesa, como
habitualmente me sento para lhe dar a papa ou o almoço. Taça cheia de
papa numa mão, a colher na outra e o peso de todo o sono deste mundo na
cabeça e no pescoço. Ela, ali sentada na sua cadeirita, já com os cintos postos, a postos para a primeira refeição do dia.
A coisa começou bem.
Eu, sentado naquela pose tão característica de quem
está à espera que a filha mande abaixo o que tem dentro da boca e não
pode olhar sequer para trás, sob pena de, após ter engolido mais uma
colher e enquanto espera pela próxima, a pequena desatar num berreiro desenfreado que tem apenas um
objectivo: a exigência de mais uma colher. Simples. Como simples são
todos os seus processos. Regra geral acabamos por ser nós, com todas as exigências, as imposições, as convenções, e os certos e errados, que acabamos por complicar a coisa.

Talvez aconteça que a minha filha seja já capaz de perceber a minha
inquietação e impaciência num momento para ela tão importante e do qual não tem como abdicar e não desfrutar, e quem
sabe se não tentou que estivesse verdadeiramente ali, com ela, em vez de estar já a pensar na interminável lista de coisas de adulto que tinha para fazer naquela manhã.
A dada altura começou
a mandar fora o que lhe chegava à boquita, para em seguida virar a cara e
enfiar depois as mãos na boca espalhando papa por todo e qualquer sítio em que tocasse naquele seu pequeno raio de acção.
Da cadeira, ao
babete, ao pijama, à minha roupa lavada e acabadinha de vestir, ainda a cheirar ao detergente e ao amaciador que a Ana sabiamente usa para deixar a roupa imaculada.

A
primeira vez ainda aceitei com um sorriso já meio parvo. A segunda correu menos bem. À terceira ralhei. À
quarta levantei um pouco a voz – essa demonstração de superioridade e força tão própria dos mais fortes sobre os mais fracos – para dizer: “Não! Isso não se faz Leonor! Caramba,
filha. Olha para isto, está tudo sujo. Rico serviço. Acabei de me vestir para te ir levar e já estou
todo sujo. Que bonito!! Não é?! Ai achas piada? Eu não acho graça nenhuma!
Que porcaria que para aqui vai, filha! Sim senhor. Uma menina que sabe
comer tão bem!” Estava dado o sermão e o pai, indignado, de olhos embaciados, a achar-se todo dono da razão…

Não chorou, mas a certa altura percebeu que era a sério e fechou a boca e a cara, quieta, de olhos colados aos meus. A espreitar-me qualquer sinal do pai que tinha ido a qualquer lado e deixado no seu lugar aquele senhor bastante idêntico mas ligeiramente furioso. O que será que lhe passou pelo pensamento naquele momento? O que será que sentiu quando me ouviu falar mais alto, de cara fechada, voz mais grossa, sem sorrir com os olhos, depois com a boca, sem sorrir de todo.

A manhã não mais voltou ao eixo por onde costuma andar. Enchi o coração de tristeza e mágoa no exacto momento em que ela me fechou a cara e olhou para o lado. Percebi imediatamente e imediatamente comecei a recriminar-me pelo que tinha acabado de acontecer. Mas não havia já grande coisa a fazer a não ser lamentar o sucedido, pegar nela, levá-la para o trocador para a vestir, arranjar as coisas e sair de casa. O tempo é inimigo das discussões e altercações com aqueles que amamos.

Nas minhas pesquisas pude perceber que há muita gente a dizer-te o que deves fazer quando perdes a calma e a paciência, mas não há assim tanta gente a admitir os próprios erros, sobretudo no caminho que percorrem com os próprios filhos. Homens a fazê-lo então são quase inexistentes. E isso, meus caros, isso é um ponto fundamental, na medida em que contribui decisivamente para que esses erros se tornem cada vez menos frequentes e para que consigamos ter a noção real do que temos de corrigir. É que em causa está, não só mas também, a nossa relação com as pessoas mais fantásticas a que temos a sorte incrível de poder amar cegamente por toda a embelezada eternidade: os nossos filhos.

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Não há nada que justifique a nossa irritação estapafúrdia e quase sempre desmedida, para com um bebé. Lamento, mas não há.

Eles estão a crescer. Não controlam movimentos. Não têm a noção das distâncias. Das consequências imediatas do que estão a fazer. Graças a Deus que são curiosos, divertidos, alegres, felizes, felizes por serem nossos filhos, por terem a sorte de ter pais que os amam e lhes dão tudo. Estão a descobrir coisas todos os dias. Têm o cérebro a absorver constantemente tudo o que os rodeia. E, mais importante do que isso, esforçam-se (tremendamente) muito para entrarem no ritmo e começarem a ser aquilo que esperamos que sejam. Que a vida espera que eles sejam e que, impreterivelmente, os obriga a ser. Porque é que havemos de lhes estar a pedir ainda mais?
Porque raio havemos nós de os repreender e os (des)tratar como se fossem adultos? Não sabem a resposta a isto, pois não?

Por esta altura já estão a fazer flashbacks no vosso pensamento e a recordar os dias e as ocasiões em que falharam redondamente na vossa missão de serem o melhor exemplo possível para o(s) ser(es) que sonharam e quiseram trazer ao mundo? Ainda não?! Se não estão, deviam. Tirem o dia para, aqui e ali, sossegadamente ou mesmo em conversa com a vossa outra metade, perceberem porque é que estas coisas acontecem e o que é que podem fazer para que não continuem a insistir num comportamento errado e que se pode virar contra nós.

Deixem-nos ser felizes. Deixem-nos sujar tudo. A máquina lava. Afinal de contas, todos nós já fomos assim. Certo? Não podemos pedir sinal melhor de que estão a crescer bem.

Sorrir mais e ralhar menos. É o meu desafio para todos os que se identificarem com este pequeno pedaço de realidade partilhado com todos vós.

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