Se os Homens não choram, o que é que isso faz de mim?

Um Homem não chora por dá cá aquela palha.
Aliás um Homem não chora por porra de razão nenhuma. Não tem sequer direito a ter esse direito. O direito a ser sensível ao que o rodeia, a ser parte da vida que o envolve. Mas onde é que estamos afinal? Onde irá parar este mundo se estes Homenzarrões se lembram de começar agora a chorar que nem pessoas comuns? Tem de haver alguma ordem na vida. Céu azul, mães perfeitas e Homens. 

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Homem que é Homem não se emociona nem se encolhe com minudências e miudezas. Nem sequer ao menos se entristece ou compadece com qualquer coisa que acontece. Ou pelo menos assim parece. Uma coisa é certa, jamais dá mostras de que se entristece. E nestas coisas, queridos amigos, o mostrar é logo meio caminho andado. 

Não se comove. Não se impressiona. Não chega nem sequer a sentir que é dor a dor que deveras sente. Nem tão pouco se comove diante da sua gente. Ele sim é um Homem com porte decente. 

Não sente, de todo. Não se incomoda com essas mariquices.
Sorri, não se ri. Quando se ri, fá-lo alarvemente, com modos grosseiros e grotescos, arrepiando caminho para a coisa mais próxima da gargalhada que consegue encontrar. Sorrisos, isso nunca.
Um Homem a sério fala alto. Fala mais alto. É o que fala mais alto. Tem de ser. Mas quem é o Homem, afinal? 

Vocifera. Enche o peito. Franze os lábios e as sobrancelhas, num gesto de apertada e contida demonstração de desagrado para com as coisas que não acontecem, nem se passam, como ele entende e diz que têm de acontecer e de se passar.

Homem que é homem bate com a porta. Fá-lo com estrondo. Seja a porta do quarto, da sala, de casa, do carro, da garagem ou da quinta.

Espera pela refeição. No ponto certo. Quente ou fria, dependendo do prato. Mas espera. De preferência sentado, como manda a lei. Diz à mulher que acabou o leite, a manteiga, o queijo, o fiambre, a cerveja. Pergunta o que é o jantar, o almoço. Diz que não gosta disso, que quer antes outra coisa. 

Não muda fraldas. Que nojo. Aquele cheiro nauseabundo que às vezes sai das fraldas dos putos já é suficientemente mau quanto mais ir abrir aquilo e ter de limpar aquilo com as mãos. Espera aí que já vais. Isso é coisa de mulher.
Não lê histórias às miúdas. Isso também é coisa de mulher. Isso e passar a ferro, e limpar as casas de banho, cozinhar, lavar a roupa, estendê-la e apanhá-la. Fazer a sopa e cozer a fruta da mais nova, ajudar a mais velha a tomar banho e depois escolher-lhe a roupa, secar-lhe o cabelo e penteá-la. Tudo isso, como é óbvio, são coisas de mulher. Já disse. Irra! 

Vê a bola! Sempre. Sabe e conhece de cor as equipas, os jogos, os jogadores, treinadores, dirigentes e fala sobre isso com toda a gente, menos com a mulher. Ou então fala com ela como se fosse um homem e espanta-se quando ela lhe diz que não gosta de futebol e não percebe nada de bola. Até porque, como qualquer Homem sabe, futebol e bola são coisas diferentes. 

Homem que é homem não faz essas merdas que são da responsabilidade das mulheres. Homem que é homem diz que esses homens que fazem essas merdas são uns maricas de merda.

E depois há as birras e os mimos… e Homem que é Homem diz que birras se resolvem com muita facilidade: “duas palmadas bem dadas” (quando ainda são pequenos demais para a frase: dois estaladões no focinho que vais ver!).
E na sequência das birras e dos mimos há o não me chateies que eu agora estou a ver a bola. Não, não vou contigo jogar à bola que está a dar este filme. Pede à tua mãe que ela deve estar aí sem fazer nada. Para que é que te serve a porcaria da consola que te comprei e do tablet. Sabes quanto é que essa porcaria custou? Vai lá brincar com qualquer coisa e não me chateies até acabar o jogo. Tás a ‘ovir?

Depois da bola logo vê o que vai fazer. Ou melhor, logo vê o que é que lhe apetece.

E no meio de tudo isto há o resto do mundo. E o resto dos homens, pobres de nós. O resto de todos os outros homens que são homens mais “assim-assim”.

Homens menores, que se preocupam, que se importam, que sentem, sorriem, amam, conversam, partilham, comentam, brincam, choram e gritam. Que pedem desculpa. Que lamentam. Que recomeçam e tentam.
Homens (com maiúscula, mais uma vez, por estar no começo da frase) que abdicam de tudo para satisfazer os que amam. Perdoam e recomeçam. Ouvem e respeitam. Discordam e fazem na mesma. Surpreendem e são surpreendidos. Contam histórias e dizem coisas aos ouvidos. Mudam fraldas e adoram comprar vestidos às filhas. Amam e vêem esse amor totalmente correspondido. Não querem mais nada. Têm tudo o que querem. Têm tudo o que precisam. Só lhes falta uma coisa e essa não se dá. Falta-lhes o impiedoso H (agá) maiúsculo que faria deles homens de verdade. 

Porque, meus amigos, Homem que é Homem tem de ter um agá (H) grande. Tem de ter na designação a grandeza que julga ser parte integrante e inerente do seu ser.
Valha-me a sorte de ser pequeno em masculinidade e macheza e gigante no amor infinito e incomensurável que tenho para dar à minha família. Porque os Homenzarrões de agá grande, mais cedo ou mais tarde, cada vez mais cedo que tarde, acabam, invariavelmente, sozinhos.
E aí, caríssimo leitor, aí, na solidão e no abandono, o agá grande não lhes enche a alma nem os bolsos, nem o coração.

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