Quando eles vêm mordidos para casa. O que há a fazer?

(Este texto foi escrito a quatro mãos)

Pois é. Está a acontecer. Aliás. Para que tenham uma ideia, em mais ou menos 2 meses aconteceu quatro vezes, ou seja, em mais ou menos dois meses a Leonor trouxe 4 dentadas bem marcadinhas para casa. Sim. É terrível. É doloroso. Parece que nos morderam a nós. Mas é real. Faz parte. E, mais importante do que qualquer outra coisa, é preciso lidar com isto da melhor forma possível.
É claro que nenhum pai ou mãe deste planeta fica contente, confortável, feliz da vida quando isto acontece. No entanto é preciso olhar para o quadro completo e não apenas para os dentes dos amiguinhos da ML.

Claro que faz parte do crescimento. Claro que faz parte da aprendizagem de tudo aquilo que é a vida de bebés na sua sociedade… de bebés.
Claro que faz parte da aprendizagem dos pais. Claro que confiamos na Creche. Mas nada disto torna a situação menos complexa e delicada.

E é mesmo de complexidade e sensibilidade que é preciso falar.

Já fizemos várias referências ao trabalho e ao carinho que nutrimos pela Educadora e pela Auxiliar da salinha da Leonor, mas esta é uma daquelas situações que, momentaneamente, apagam tudo isso, sobretudo pelo número de vezes. (repito, momentaneamente)
A mamã foi quem ficou mais inconformada. – Pois fui, é verdade! Coitadinha da minha menina…
Mas também eu precisei de me acalmar e de recuar alguns anos até às cadeiras de pau da Escola Superior de Educação de Lisboa para me recordar de tudo o que aprendi nas aulas de Pedagogia, de Psicologia, de Sociologia, de tudo! E porquê? Porque são mordidelas, porque ficam marcadas, porque ela é tão pequenina e (ainda) não morde(u) ninguém. Lá chegará.

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A primeira coisa que apetece, ao fim de tantas trincadelas naquele corpinho maravilhoso que Deus lhe deu, é perder a compostura e reclamar. Mas reclamar a sério. Sem falinhas mansas. Sem meias coisas. Apetece chegar à porta da sala dela, à hora de a ir buscar, e reclamar como se o amanhã não chegasse e como se de um caso de vida ou morte se tratasse.
Afinal de contas temos desculpa, nunca reclamamos! Somos pais super tranquilos e sensatos. Ponderados. Racionais. E com a vantagem de termos entre nós os dois, um Educador de Infância com canudo mas que nunca teve uma sala só dele, que as trocou pela Redacção da SIC.
Portanto, somos assim dois pedaços de gente que acata sem problemas, que aceita, que entende, que compreende, que ouve, que pensa antes de falar. Mas que no meio de toda esta candura somos gente que não deixa de ter o coração no seu devido lugar.

Não foi fácil acalmar a Ana, mas acabei por conseguir, não sem antes ter procurado o conselho sábio de quem tem exactamente o mesmo trabalho, a mesma missão de ajudar crianças desta tão tenra idade a conhecer e a descobrir o mundo.

A minha querida Nádia, gravidíssima que está, disse-me logo que é preciso ter muita calma. Que esta é uma situação extremamente delicada e difícil para todas as partes. Educadores, bebés, pais de quem é mordido e pais de quem morde. Mas a palavra chave que eu já tinha dito à Ana e que a Nádia fez questão de me repetir foi: P-A-C-I-Ê-N-C-I-A. É mesmo preciso ter muita paciência porque isto não vai acabar aqui. Muito pelo contrário. Ainda agora começou.

Nestes, como na grande maioria dos “casos” que acontecem nesta tão tenrinha idade, é preciso respirar fundo e pensar que estamos perante pequenos seres que não sabem o que estão a fazer. Pior. Não compreendem grande parte das coisas que dizemos.
Basta pensar que, por exemplo, quando estamos em casa e eles querem empoleirar-se no móvel da TV pela milésima vez, depois de já lhes termos dito novecentas e noventa e nove vezes: “Não vás para aí”… o que fazem eles? Riem-se e empoleiram-se novamente no mesmíssimo móvel. Ou seja, não entendem, não fazem associações lógicas, até porque não têm vocabulário que lhes permita pensar a esse nível. Seguem estímulos. Reagem aos mesmos. Acção-reacção! Ponto! Claro que devemos mostrar desagrado. É expectável que o façamos, inclusivamente. Seria estranho se não reagíssemos perante uma situação destas. E não, não nos corre capilé nas veias. Mas a ponderação e a calma, aliadas à racionalidade e à capacidade de analisar as coisas antes mesmo de nos deixarmos levar pela má conselheira que é, tantas vezes, a emoção, serão sempre conselheiros de excepção e os melhores amigos dos pais de primeira ou segunda ou décima terceira viagem.

Sabiamente a Joana optou por não nos dizer quem tem mordido a Leonor. Sabiamente, porquê? Simples. Imaginem que vos dizem quem é. Vão olhar para o pequenote ou para a pequenota com outros olhos. Garantidamente. E eles, pobrezinhos, eles nem sequer sabem o que estão a fazer. E não merecem ser discriminados por dois pais descontrolados. São manifestações incontroladas de excitação, alegria, felicidade, frustração… são mesmo. Experimentem dizer-lhes que não se faz isso e verão o que acontece. Viram as costas e no instante seguinte, outra ferroada. É que é certinho como o destino (como diz o Povo). Por isso, na certeza de que este é um dos vários casos complicados que vamos enfrentar nesta viagem incrível da paternidade, nada nos pareceu mais certo do que vir até aqui partilhá-la convosco.

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Se confiam nas pessoas a quem diariamente entregam os vossos bens mais preciosos – e é bom que confiem mesmo – têm de acreditar que só em conjunto é que se conseguem ultrapassar os momentos delicados. É com elas que os nossos filhos passam grande parte do dia. Passam tanto ou mais tempo na escolinha do que passam em casa. Pensem nisto. Por isso, é mesmo fundamental que haja confiança, caso contrário mais vale procurar outra escola. – acreditem que a posição delas é extremamente difícil.

Os nossos olhos silenciosos carregam e encerram, por si só, muitas palavras e, nestes momentos em particular, é perfeitamente normal que tenham dúvidas e que sintam que não deram à vossa, ou ao vosso pequenote a atenção necessária. Mas, guess what, somos todos imperfeitos. Somos todos adultos. E todos queremos exactamente o mesmo, isto é, todos nós somos saudavelmente “obcecados”em conseguir o melhor para os nossos bebés. Por isso mesmo, falem, conversem, mas não se esqueçam de ouvir. Nunca se esqueçam de ouvir o relato sincero de quem só quer o melhor para os vossos filhos. Connosco foi assim. Ouvimos. Percebemos. Ouvimos um pedido de desculpas sincero, humilde e carregado de humanidade. E continuámos a receber mensagens da Beta e da Joana ao longo do dia para saberem se a pequenina estava bem. A elas também lhes custa, muito, nunca pensem que não.
Mas se todos formos capazes de reconhecer méritos e deméritos na procura incessante do melhor para eles, estaremos invariavelmente mais próximos daquilo que é o caminho certo. Estamos e temos mesmo de estar juntos no comboio imparável e encantador que há de levar os nossos pequeninos à descoberta do incrível lugar que é este a que chamamos Mundo. 

E aqui, não nos esqueçamos nunca, as coisas não são sempre belas, encantadas, maravilhosas e arranjadas. Há dias maus. Há dias de m**da. Há dias em que parece que o Universo se aplica graciosamente na tarefa de nos fazer a vida negra. Mas, acreditem que o melhor está sempre para vir… e o pior também. Obviamente. Lida-se com uma coisa de cada vez, retirando a devida e necessária aprendizagem e ilação de cada uma das (delicadas) situações que vamos tendo de enfrentar. Sempre.
Por nós. Por eles. Por um mundo melhor. Para eles. Para nós. Para que a Humanidade não se encerre na luta constante entre o Bom e o Mau e se perca de amores a ver crescer o bem mais precioso que tem: as suas crianças.

Por isto tudo a resposta à pergunta que serve de título de este texto é… nada. Não há grande coisa a fazer que não ser paciente e não dar demasiada importância a uma coisa que não tem tanta importância assim.

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