Estamos a acabar com uma tradição secular: as refeições em família

Este fim-de-semana li um texto do Daniel Oliveira, no Expresso, que falava de uma problemática que me é cada vez mais cara e que tive e tenho tido a oportunidade de observar nos mais diversos restaurantes por onde tenho passado, não este Verão, mas desde que a minha filha nasceu. Vai daí que decidi escrever sobre isso, exactamente porque me inquieta e a pessoa deve expiar as suas inquietações como pode e consegue.
A coisa está pôr-se de tal maneira que creio que começa a estar verdadeiramente em perigo uma das mais nobres e importantes tradições do nosso país e até de todos os povos mediterrânicos: as refeições em família.

O Daniel começa por dizer uma coisa com a qual concordo em absoluto e que foi tremendamente bem escolhida para dar início ao texto: “Nunca fez o meu género dar lições de como se educar um filho. Cada um sabe das suas circunstâncias e tenho muito pouca paciência para pais moralistas da educação alheia. Só que, nestas férias de verão, apanhei-me por várias vezes a pensar no tenebroso futuro que nos espera”. 

Pensou o Daniel e pensei eu, sem que tenhamos, em momento algum, debatido ou discutido o assunto durante o retiro estival de Agosto. 

Senhoras e senhores, lamento mas estamos na presença de uma ameaça séria, de uma praga. Estamos a fazer uma perigosa concessão da qual não fazemos ideia das consequências futuras. Mas elas existem e não são nada meigas nem simpáticas.

Falo da praga dos smartphones e tablets que passaram a ser elementos de presença obrigatória nas mesas de refeição de um grande número de famílias do nosso país… e do país dos outros também, que não se pense que isto afecta apenas a nossa mui amada e tão requisitada Pátria. Nada disso. Os ‘camones’ são igualmente responsáveis por alguns dos momentos mais tristes a que assisti este Verão. Camones e ‘aveques’.

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Como disse o Daniel e faço minhas as suas palavras, não quero com este texto ser o censor moral da vida alheia, longe, muito longe disso, mas acho que estamos a elevar a coisa a níveis absolutamente estapafúrdios e que me fazem e fizeram corar de espanto e admiração perante a disseminação do fenómeno.

Antes de mais deixem-me que vos diga que sei bem o quão difícil é entreter uma criança durante 1 hora ou mais num restaurante, sentada numa cadeira alta, para estar ao nível da mesa, com os pés no ar e as pernas presas, podendo apenas servir-se das mãos para se entreter. É duríssimo. Claro que é. Só quem nunca passou por situação semelhante é que pode afirmar o contrário. E isto é indiscutível. O problema reside na forma como se lida com este facto inalterável.

Connosco a coisa dá-se mais ou menos assim: come-se quando ela deixa que se coma. Os intervalos são definidos por ela. Sim, grita. Como ainda não sabe falar, grita que se desunha, sobretudo se a hora de deitar já tiver passado. Se quiser mais pão. Se estiver farta de estar no mesmo sítio. Se lhe apetecer. Se alguém a chatear. É uma criança cheia de si e de personalidade.
São, como somos todos, animais de hábitos, de rotinas, quanto mais certas, mais elas se sentem confortáveis e melhor se desenvolvem – advento tão fulcral neste mundo, o desenvolvimento – para no futuro serem autónomos, confiantes, independentes, astutos, e bons seres humanos. Mas bons no sentido da bondade, e não na capacidade de ultrapassar níveis em vídeojogos.

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Mas dizia que as refeições num restaurante são duras. Claro que são. E se já não se lembram eu faço o favor de vos recordar com um vislumbre do que foi um dos nossos jantares de família nas férias deste Verão:

Chegamos e é sempre preciso arranjar espaço ou para o carrinho de bebé ou para a cadeira do IKEA que permite a uma criança de 15 meses sentar-se à mesa com os adultos e estar ali, durante toda a refeição, com os olhos ao nível dos crescidos. A comer ou a petiscar o que eles comem. A ouvi-los. A vê-los. A registar tudo. Mas caramba, até a paciência deles tem limites. 
Senão vejamos. Fazemos o primeiro pedido, onde se incluem quase sempre as bebidas, tão geladas e frescas quanto possível ou não estivesse eu de calções, tshirt e chinelos. Nesse dia, resolvemos simplesmente petiscar sem pedir nenhum prato da carta. Assim viriam para a mesa vários pratitos e toda a gente podia ir provando os petiscos uns dos outros. Ahhh, as férias, as tão ansiadas férias… ainda o empregado estava a virar costas e já a Leonor estava a entornar água do biberão em cima da cadeira. E a pedir qualquer coisa para brincar. Levámos 2 ou 3 brinquedos, porque o restaurante… é isso mesmo, um restaurante. Não é uma creche ou um JI ou um ATL. É um restaurante, onde as pessoas entram para… comer. Imagine-se.
A comida ainda demora uma boa meia-hora para chegar. Sorte a nossa que demos o jantar à bebé ainda em casa… 

Damos-lhe para a mão um… livro. Se pode! Gente arcaica e perdida no tempo que dá livros às crianças… enfim. Ao fim de 5 minutos e de já ter “lido” o livro 5 vezes espeta com ele no chão pela primeira vez! A mãe baixa-se e apanha. Depois agarra num garfo. A avó tira-o da mão dela. Depois quer água. E pede colo pela primeira vez. E ainda só estamos no restaurante há 15 minutos. 

Vem o primeiro petisco e já está tudo a acabar o pão e os couverts e ela a pedir mais pão. O carrinho de bebé está de pé, arrumado no seu canto. Volta a atirar o livro para o chão e já está com a fralda cheia de xixi. Agora atira também com o biberão para o chão e dá dois ou três gritos estridentes e nós com o estômago colado às costas. “Não grita, filha! Não é preciso gritar meu amor… os papás estão aqui.” Chora e… já lá vêm as rabas, os ovos mexidos com farinheira – que só não vão parar ao meio do chão por magia – a tortilha e os pipis. A meio é preciso ir mudar a fralda… o afamado restaurante não tem trocador e o génio do empregado sugere à Ana que lhe mude a fralda em cima do tampo da sanita. Tem sorte de não a termos trocado em cima da mesa! Animal! Mas continuando. Volta da fralda e ela já vem a esfregar os olhos. E eu ainda cheio de fome e ainda faltam chegar coisas à mesa.

– “Mais uma imperia! Duas…!”

Tudo isto acima descrito acontece num espaço de apenas 30 minutos. E ainda o estômago vai meio cheio. Lá se consegue comer com toques de artista de variedades pelo meio. Canta-se, faz-se o que se pode para que ela esteja bem. O sinal de que temos que ir embora chega quando a Leonor dá 2 gritos daqueles que fazem as cabeças presentes na sala rodar 180º para ver se a estamos a matar… é o sinal. Está na hora de deixar de tentar encher o bucho e levá-la dali para fora. Não por nós. Não por quem quer que esteja sentado no restaurante e se incomode com o barulho que uma criança, sozinha, faz, mas por ela. Está notoriamente exausta. Praia. Mar. Andar. Subir e descer escadas. Iodo em doses industriais. As férias dão cabo dela. Parece um tormento mas não, não é. Está a crescer e a conhecer os próprios limites. E isso é maravilhoso e motivo de orgulho. 

Toda esta narrativa seria produto da minha imaginação se, no momento em que a sentamos à mesa connosco lhe espetássemos nas mãos um iPhone ou um iPad. Ahhh, que “maravilha” seria jantar sossegado. Sem interrupções. Gritos. Berros. Coisas a voar ou a cair. Sem sorrisos. Sem brincadeiras. Sem momentos de transmissão continua de valores, sem momentos em que estamos, porque é esse o nosso inerente papel de pais, a educar os nossos filhos. Sem filhos.

É precisamente disto que se trata. Da confusão de papéis. Queremos ter filhos mas estamos à espera de os educar… com gadgets? 

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Somos pais babados nas fotografias que orgulhosamente espetamos nas redes sociais, espelhos de felicidade transbordante, mas depois achamos que bom mesmo é dar-lhe para a mão, seja qual for a idade (até porque não há quase limites, desde que saibam segurar a cabeça e dizer qualquer coisa que já podem segurar o telefone ou ficar fixamente a admirar o filme, a série, os desenhos no youtube, é a vontade do freguês…) um smartphone ou um tablet para que este “fique sossegado” e nos deixe “comer em paz”. Advento deste novo mundo em que vivemos. Isto preocupa-me seriamente. Porquê, se não tenho nada com isso? É o futuro que me assusta. Não o presente. 

Crianças que estão constantemente a ser empurradas para a realidade virtual, para o isolamento, para um mundo alternativo e… muito “sossegadinho”. 

E sim, a norma é esta. Os ET somos nós, os pais que não seguem este caminho. Que não metem na mão dos filhos aparelhos que custam, muitas vezes, mais de 500€. Crianças de colo, de carrinho, com smartphones nas mãos, calados, quietos, sossegados. Asseguro-vos de que é este o panorama na maioria dos restaurantes a que tenho ido. Chegam a ser distribuídos individualmente, consoante o número de crianças na mesma. Por vezes estão sentados lado a lado, cada um com o seu gadget… é assustador. Desculpem mas não consigo achar isto tudo normal e um sinal da evolução dos tempos. Não consigo e pouco me importa o que fazem os outros. Serei orgulhosamente o pai que não deixa, que não dá, que insiste em estar à mesa, sem televisão – tenho apenas uma TV em casa, na sala – a conversar, olhos nos olhos, cara a cara, ou em silêncio – porque também este é importante – porque só assim conseguimos saber verdadeiramente uns dos outros. Não há outra forma. Esqueçam.

E tudo isto vai virar-se contra nós. Podem ter a mais absoluta certeza. Seja pelas contas dos médicos da coluna, dos olhos, da cabeça… seja pela distância e alheamento com que os nossos filhos nos vão encarar, ou seja simplesmente porque, um dia, chegaremos a velhos, sozinhos, e não vamos gostar de não termos criado com a nossa descendência a relação que nos permita tê-los por perto, sabendo que somos nós quem verdadeiramente importa e não o youtube, a netflix, os jogos, o whatsapp, o instagram e tudo o mais… 

“Dá e receberás em dobro…!” Importa que não se perca este lema de vista… caso contrário ainda vamos chorar muito pela vida fora… 

O amanhã existe senhores… e é bem duro quando não nos preparamos minimamente para a sua chegada. E, se me permitem, não me parece que esteja a ser planeado da melhor forma. Not at all. 

Por isso, não se preocupem se dão colo a mais aos vossos filhos, ou com o colo que os outros dão aos seus próprios filhos, não se inquietem quando a vontade que sentem é de os encher de mimo, e se, aqui e ali, lhes vão satisfazendo as pequenas vontades. Não virá daí qualquer mal, meus caros. 

Preocupem-se, isso sim, com a quantidade de vezes em que usam a tecnologia como forma de substituição para aquilo que deve e tem de ser o nosso papel: o de os educar e de lhes mostrar os melhores caminhos para que cresçam da forma mais saudável e feliz possível. Isso é que é verdadeiramente importante.

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