Quando a paciência (quase) se esgota. O que fazemos?

Culpado.
Assumo-o sem quaisquer rodeios ou eufemismos para mascarar a minha incapacidade. 
Há dias assim. Em que a paciência se vai. Esvanece-se. Some-se. Para onde é que não consigo bem perceber. Mas vai-se e esvai-se. Perde-se algures pelo meio do caminho vertiginoso que compõe o crescimento saudável de uma criança. E depois fica a culpa. Mas a isso iremos mais no fim deste texto.

image

Que atire a primeira fralda cheia de cocó quem nunca perdeu a paciência com os miúdos. Há limites que nós próprios desconhecemos que temos. E que só passamos a sabê-los e a entendê-los verdadeiramente quando os atingimos. 

Não considero que seja triste, mau sinal, incorreto, inadequado ou que faça de nós monstros impiedosos e sem qualquer ponta de humanidade. Nada disso.

Faz de nós – isso sim – seres humanos. Com fragilidades. Limites. Forças e fraquezas. Mas com sentimentos de verdade. Que se cansam. Que exasperam. Que desesperam perante a incapacidade de fazer com que o(s) nosso(s) filho(s) percebam – sobretudo quando ainda não falam – o que lhe(s) estamos a dizer e porque é que o estamos a fazer. 

Eles, pobres coitados, não fazem a mais pequena ideia do que se passa, mas vêem-nos muito assarapantados, enervados, irritados, de cara feia e trancada, repetindo expressões como: 

“Estás a ver o pai a rir, filha?”
“Tenho cara de quem está com vontade de brincar, Maria Leonor?”
“Achas mesmo que isso que estás a fazer tem graça? Pois não tem!”
“Não, filha! Isso não se faz. Não se cospe a sopa! É caca. É feio.”
“Achas bem? Achas bem o que fizeste ao pai?”
“Acabou, Leonor! Acabou!”
“Não faz isso. Aaaaaaaai! Maaaaaauuu!”
“Vamos embora a comer isso tudo imediatamente que não temos a noite toda!”

Bom, já deu para se reconhecerem ou identificarem em alguma das situações que leram acima? Ainda não? Não faz mal que ainda agora comecei. 
Enfim. Chegamos a roçar o ridículo. Chegamos mesmo. E o mais “anormal” no meio de tudo isto é que, durante o processo, não nos damos conta da figura absurda que estamos a fazer e que faz com que os pequenotes, ali sentados, fiquem  boquiabertos a olhar para nós, siderados e espantados com a ignomínia a que estão a assistir e, seguramente, olham para nós e pensam: 
“Mas o que é que te está a dar? Porque é que estás tão irritadinho e tão nervosinho? Foi alguma coisa que eu fiz? Já reparaste que eu sou apenas um bebé a ser aquilo que tenho de ser… um bebé?! Credo! Que exagero! Pronto, eu não cuspo mais a sopa. Mas vê lá se te acalmas, por amor da Santa. E podes desfranzir a sobrancelha… Já viste como já tenho um vasto vocabulário, papázinho lindo?”

O que é que nos conduz a este estado de impaciência para com o ser que mais amamos nesta vida? Não sei, mas tenho a minha suspeita: cansaço. Muito cansaço acumulado. Os dias menos bons existem. As dores de cabeça que começam no pescoço também. Tudo misturado e somadas outras tantas parcelas que incluem gritos, guinchos, asneiras, coisas a cair, portas a bater, bonecos espalhados um pouco por todo o lado, fechos em portas na cozinha (que ela adora fechar ou então mostrar-nos que estão abertos e que é preciso fechar) e as portas que não têm fechos escancaradas com o respectivo pacote das massas no chão. A caixa com os alhos a passear pela casa, não vá haver algum vampiro escondido, o livro na sanita, os sapatos (todos) dentro do cesto da roupa… tudo normal e que até é motivo de risada em todos os outros dias, mas… nestes (que felizmente são raríssimos e por assim ser é que são eles os protagonistas desta pequena narrativa) em particular, nada parece ter o mais pequeno vislumbre de piada. Precisávamos de uma sesta, mas há sempre qualquer coisa para fazer. E estes dias são frequentemente acompanhados de sestas curtas da parte dela. 

image

Por experiência própria já percebi uma espécie de padrão que me mostra que os dias em que estamos mais cansados, preocupados, agastados, apreensivos, são os dias em que, por regra, vejo esvaziar com rapidez o balão de ar onde guardamos a boa da paciência. É algo que temos de trabalhar, claramente, mas que estou certo que é algo que acontece a muito boa gente. 

Não está em causa o amor que lhes temos está em causa o cérebro e as falhas que a máquina (quase) perfeita também tem. 

É isso que faz de nós seres tão especiais. Somos pais. Somos tudo para estes seres indefesos e absolutamente perfeitos, mas temos falhas, temos quebras, temos dúvidas, temos medos e receitos e falhamos. Porque só falhando é que se pode melhorar. Só errando é que se pode aprender. Só estragando é que se aprende a arranjar. Só aceitando o erro é que se consegue ganhar consciência da debilidade e ultrapassá-la. Na paternidade. No casamento. No trabalho. Nos projectos. Na vida.

O sentimento de culpa com que tenho de viver depois disso é suficientemente expedito para me fazer perceber de imediato que falhei. Que errei. Mas que só acontece porque tento sempre ser o melhor pai e educador do mundo. E nesse caminho, por vezes, sou forçado a desviar-me pelos obstáculos que tudo isto me coloca. Não é fácil ser pai por inteiro. Não é fácil querer estar em tudo. Muitos acabam por desistir da imersão completa neste papel. A mãe que faça isso pensam erradamente, achando que estão a usar do pleno uso do seu direito másculo de não entrar nessas coisas. Azar o deles. Não trocava as birras, as cuspidelas de  sopa, os gritos, os guinchos, os choros, as portas a bater, os livros na sanita, os banhos a chorar, o meter-se dentro da nossa banheira de meias calçadas e vir por ali fora toda contente. Nem a minha falta de paciência, nem ela. Não trocava nada disto pela sorte imensa que tenho de poder crescer todos os dias enquanto homem, e enquanto pai. Teu pai. Minha querida filha. Ver-te crescer é uma oportunidade abençoada que a vida e a tua mãe me permitiram e que eu não trocava por riqueza nenhuma nesta vida.

Ser pai não é igual a ser mãe. Pais e mães têm papéis em tudo diferentes. É assim que é. É assim que deve e tem de ser. Porque somos seres humanos absolutamente distintos e, por isso mesmo, incomparáveis. E nessa diferença, percebida de perto pelos nossos filhos, que reside a sua maior riqueza.

Bem sei do que falo. Cresci com a minha mãe e com o meu irmão. Sem pai. E a falta que me fez um pai, tantas vezes, na minha vida. Jurei a mim mesmo que haveria de fazer e acompanhar tudo. E é isso que vou fazer. Doa o que doer. Custe o que custar. A minha filha terá o papá sempre por perto. Seja onde for. Esteja onde estiver. Se precisar de mim. Eu estarei lá. 

Mas se puderes parar com isso de cuspir a sopa, o pai e a mãe agradecem. 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s