Caí das escadas com a bebé ao colo. Ela saiu ilesa. Eu não. Missão cumprida!

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Confesso que era tudo aquilo que menos esperava mas a verdade é que aconteceu. E até àquele preciso momento nada indicava que me ia esbardalhar de umas escadas abaixo com a minha bebé ao meu colo. Mas aconteceu. Caí das escadas com a bebé ao colo. Ela saiu ilesa. Eu não. É caso para dizer: Missão cumprida! Certo?

É coisa inerente e está umbilicalmente ligado a “tudo isto” o dever de protegê-los! Protegê-los com a nossa própria segurança. Abdicando dela. Com o nosso próprio bem-estar. Abdicando dele. Com a nossa própria vida. Abdicando dela se assim tiver de ser! Mas o que um tipo nunca espera é que lhe vá dar para o breakdance, com a filha ao colo, no último lance de escadas do pequeno jardim entre prédios plantado que compõe a paisagem da urbanização onde vive. 

Foi uma manhã bastante calma. Estivemos em casa durante grande parte da mesma, a ver passar o nevoeiro até que pudéssemos finalmente sair para passear na rua, já com o sol a ocupar o seu devido lugar em mais um dia desta espécie de Verão que teima em não nos abandonar. 

Entretanto vesti-a, vesti-me, pus-lhe perfume, pus-me perfume, dei-lhe água e pus-lhe o chapéu na cabeça. Bebi um copo de sumo e lá fomos nós.  
Tal como nos outros dias, a curta viagem que precede a chegada à rua foi uma cobóiada. Paródia no elevador. Brincadeiras ao espelho no hall de entrada do prédio e… chegámos ao R/C. Anda filha, vamos embora. Abro a porta e ela lá vai, pelo seu próprio e afirmativo passo, até aos dois primeiros degraus que encerram o patamar do prédio e se precipitam para a rua. Nestes não havia como caír. 

A nossa rua não tem saída e a mesma termina precisamente em frente à porta do prédio. Pelo que até ao parque do meu descontentamento são 30 ou 40 metros, sempre a descer. Dá a mão ao papá, filha. E ela assim faz.

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Chegámos tranquilamente ao passeio que dá acesso ao parquezinho da urbanização e começámos a encaminhar-nos para os três lances de escadas que antecedem a entrada no recinto mais propriamente dito. Recinto esse que mais não é do que um pequeno parque, com 2 bancos de ripas de madeira pintados de framboesa, presos ao chão, separados por 7 ou 8 metros de chão e duas árvores, e alguns muitos canteiros de margaridas coloridas. Completa-se com dois muretes de cimento por pintar e alguns corrimões verdes que acompanham o comprimento e precedem a sebe de arbustros que por sua vez limita o parque e cria a barreira física necessária entre a estrada e o parque. Parque que conta ainda com algumas árvores de copa pouco densa a ladeá-lo e vista de e para todos os prédios e janelas da urbanização. Gostaram da descrição ao jeito queirosiano?

Não tem grande encanto para um adulto mas é um mundo inteiro para uma bebé de 17 meses! Adora. Fica “histérica” assim que nos começamos a encaminhar para lá!

E este era mais um passeio normal numa manhã normal de um dia de semana igual a tantos outros. Era. Digo bem. Era.

O que se seguiu a esta chegada airosa à rua pode facilmente ser enquadrado na categoria das coisas mais absurdas e estupidamente horríveis que vivi nos últimos tempos. Não pela queda. Não pelo embaraço. Mas sim pelo inusitado e inesperado que te faz temer pela vida do teu bem mais precioso numa tão curta fracção de segundo que te parece uma sofrível eternidade. Ao olhar-me de fora e a ver-me, com 34 anos, a esbardalhar-me num lance de escadas aparentemente inofensivo, com a minha bebé ao colo, a coisa parece realmente assustadora.

Foi tudo demasiado rápido, mas ainda assim os olhos não acompanharam a velocidade de tudo o que se estava ali passar. E é tanto. Pelo menos dentro da nossa cabeça. Só tive tempo de me situar, de ver o que estava à volta e onde é que a bebé poderia eventualmente bater, se não a conseguisse segurar.  Procurei um sítio para aterrar, sendo que não conseguia ver o chão que estava a pisar, por ter a bebé ao colo. Aliás, esse foi o grande problema. Não ter visto o chão. Não ter visto o degrau. Ter ficado com a aquela sensação de que alguém me rasteirou ou que o chão se transformou em gelatina por 1 segundo só para se rir às minhas custas, nem sequer tendo em atenção que seguia com a minha filha nos braços.

Vinha segura apenas por um braço, no outro trazia o biberão da água. Só tive tempo de a abraçar e apertar e tentar dar ao corpo o chamado “peso morto” que me fizesse cair mole e não me aleijar muito. De seguida cravei os olhos na minha filha e envolvi-lhe as costas com o braço esquerdo, segurando-lhe a cabeça com a mão. Depois caí sobre a perna direita, com a perna esquerda dobrada e o pé torcido. Senti o agudo da dor e disse um indignado aiiii… fo…go, filha, o pai aleijou-se querida. Só falei porque ela já tinha olhado para mim, ainda meia de lado no meu colo e perguntado serenamente, como quem não percebeu absolutamente nada do que acabou de se passar, Papá, hum. A inocência e a incapacidade de perceberem e percepcionarem o perigo é nossa aliada nestes momentos.

Levantei-me, pu-la no chão, pedi-lhe que se sentasse a meu lado nas escadas enquanto confirmava que tinha as pernas e os pés no sítio, que conseguia mexer tudo direitinho. Ela deu-me a mão para que me levantasse e a levasse ao parque como era suposto. Afinal de contas não viemos até à rua para ficar sentados nas escadas, certo?! deve ter pensado.

E assim fiz. Levantei-me com algum custo. Para me sentar de seguida num dos bancos de ripas pintados de vermelho e comprovar então que conseguia andar direito. As dores só chegaram a meio da tarde, com a perna esquerda a dar conta da sua insatisfação e incómodo perante a brincadeira da manhã. Já passou uma semana e ainda tenho dores na perna esquerda. Ela, ela deve ter-se esquecido 2 ou 3 horas depois.

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Conclusão: caí, aleijei-me, uma semana depois ainda tenho dores, mas a Leonor ficou intacta e nem sequer ao menos percebeu bem o que se tinha passado. Foi mais uma brincadeira do papá doido! O que significa que a missão foi cumprida e com elevado grau de sucesso e mérito. Modéstia à parte, evidentemente.

Coisas a reter: nunca se esqueçam que bastam dois segundos de tremenda falta de sorte para nos estatelarmos ao comprido numa escada. Se forem com eles ao colo, boa sorte, vocês sabem que são todos super pais e super mães. E quanto a nós? É fazer gelo, Voltaren e esperar que passe. Não há grande coisa a fazer, na verdade.

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