A sorte (com os filhos) também é trabalho dos pais

Trabalho dos pais, mas como assim? Em que medida? Mas de que é que ele está a falar? A sorte ou se tem ou não se tem, agora cá “dá trabalho”… E o que é que ele sabe da minha vida para dizer que isto é uma questão de sorte ou não?


Desculpem-me mas acredito nisto com muita força e é pouco provável que me consigam convencer do contrário. Ou seja, que me consigam fazer sequer admitir a remota hipótese de considerar que o processo educativo de um filho possa ser encarado da mesma forma com que se encara o boletim do Euromilhões. Não pode. Não é assim que funciona.

A sorte com os filhos – se querem mesmo falar em “sorte” – também é trabalho dos pais. Em momento algum me esqueço que há crianças que já nascem com problemas que estão bem para lá da esfera do bom ou do mau comportamento, mas não é disso que falo aqui. Aqui limito-me à questão comportamental que nos acompanha na espuma os dias e que acompanha a esmagadora maioria dos pais.

Não faz sequer sentido que o assunto seja visto de outra forma que não esta.
Se é com os pais que os filhos aprendem tudo ou quase tudo nas suas ainda curtas vidas, dependendo obviamente do tempo que passam com eles diariamente, como não colocar nos pais a responsabilidade pelo percurso inicial da vida dos seus filhos?
Fará sequer sentido que assim não seja quando a criança tem os pais presentes, estejam eles juntos ou separados?

Envolver os avós, os tios, os padrinhos, os vizinhos, é coisa que aos pais diz respeito, lá está, mas o papel principal nunca lhes pode ser dissociado.

Claro que não sei absolutamente nada das vossas vidas, nem pretendo saber, tão pouco, uma vez que a minha já me dá trabalho que chegue, o que pretendo mesmo é que, ao lerem isto, percebam, entendam e se possível que passem a mensagem a quem acreditarem que precisa de a ler, de que a responsabilidade pelo bom ou mau feitio das nossas crianças é, em grande parte, nossa!
Sim. Isso mesmo. A responsabilidade é nossa.
Por isso, de pouco ou nada vos serve a desculpabilização e, sobretudo, botar a culpa nas pobres das crianças.

A responsabilidade é e tem de ser nossa.
Partilhamo-la com a escola, com os familiares mais próximos (tios, irmãos + velhos, avós, etc… e nada mais. Mas é connosco que eles aprendem a grande maioria das coisas mais importantes da suas pequeninas vidas. Isso é absolutamente inegável e inquestionável.

Acredito aliás que o insucesso e o falhanço nos processos educativos dos nossos filhos está intimamente ligado à forma como agimos, actuamos, procedemos e educamos as nossas crianças, mesmo nos momentos em que achamos que não o estamos a fazer.

“Don’t worry that children never listen to you; worry that they are always watching you.Robert Fulghum

A representação do nosso papel de pai ou mãe é infinita e ininterrupta, mas acima de tudo somos a incontornável e insubstituível figura de proa e referência nas suas vidas.

Somos o exemplo – mesmo quando não queremos – do qual eles copiam e imitam quase tudo, das coisas mais simples e evidentes às mais rebuscadas e pronunciadas, e até mesmo aquelas que fazemos de forma tão mecânica que nem nos apercebemos que estamos a fazer, os gestos, os tiques, as entoações, os tons de voz, os olhares, a forma de usar as mãos, de cruzar os braços, até o andar, caramba! Tudo. Eles copiam tudo. E não precisam de licença para o fazer. Copiam porque nos idolatram. Amam. Veneram. E acham que tudo o que fazemos é absolutamente perfeito. E ainda há quem consiga fazer mal aos próprios filhos…

Para eles somos a base do que é o comportamento humano. Somos o seu mais fiel garante de segurança, de protecção, de amor. E isto, isto é tão certo quanto 1 + 1 = 2.
Não vale a pena sequer tentar contestar. É assim que é. Ponto.

E o “pior” disto tudo é que esta vigilância e este escrutínio são constantes.

Por isso, frases como:

– Nunca estamos “descansados”!
– Não temos “um minuto de sossego” a não ser quando eles se deitam. 
– Nunca podemos estar só ali, a ser, a estar, sem educar, sem pensar. Nada. Irra! 

Não servem de nada. São lamentos e lamúrias.

Não podemos parar nem descansar. Não nos primeiros anos de vida dos nossos filhos.
O processo educativo também não pára. Não tira férias nem dá folgas. Não cessa. Jamais! E porquê? Simples. Porque nenhum de nós nasceu com um interruptor que se liga e desliga para interromper ou retomar o processo, o crescimento, a inspiração, a aprendizagem através da imitação, da repetição, da provocação e da adequação das palavras e dos gestos aos contextos correctos e adequados.

Por isso, meus amigos, é aguentar e fazer o melhor que se pode e sabe e nunca fechar as portas a conselhos e possíveis teorias vindas de fora da redoma em que tantas vezes no enfiamos e que nos possam ajudar a ser e a fazer melhor.

Nunca é demais lembrar-vos que o que está aqui em causa é, nada mais, nada menos que a vida dos nossos filhos. Não é a infância ou a adolescência, mas toda a sua vida.

As crianças não são postas no mundo com o intuito único de nos azucrinarem a paciência até próximo da fronteira com a exaustão. Não senhor! São seres que precisam de nós para tudo e que só precisam de amor, carinho, atenção, ajuda e paciência.

São nossos filhos. Sobrinhos. Afilhados. E precisam, muito, desesperadamente, como do pão para a boca, que os ajudemos a crescer e a perceber como é que se devem comportar neste estranho e louco mundo dos adultos e em que vivemos a uma velocidade aterradora e vertiginosa.

Porque é que senti necessidade de escrever sobre isto, perguntar-se-ão vocês, ou mesmo que não perguntem atrevo-me a responder. Escrevo sobre isto porque assisto de perto a casos que me transcendem e reviram as vísceras do avesso.

De gente que tem bebés (até aos 3 anos, são bebés) e crianças pequenas e que os diabolizam. Responsabilizam por tudo o que de mal lhes acontece na vida. Olham para eles como os “causadores” dos “problemas” maritais, pela perda de liberdade, de sossego, de saídas à noite, de bebedeiras, de jantares até tarde, de noites bem dormidas.
Criticam-nos e castram-nos quando deviam estar somente focados e preocupados com eles. Em mostrar-lhes o mundo. Em dar-lhes os meios necessários para que, quando chegar a sua altura, possam também eles enfrentar tudo isto que cada um de nós enfrenta diariamente quando sai de casa para o mundo.

Porque lhes gritam e no momento a seguir estão a tentar fazer uma palhaçada para logo de seguida voltarem os gritos porque não come, porque não bebe, porque cospe a comida, porque quer brincar, porque não quer tomar banho, porque não quer dormir, porque tem dificuldade em dormir, em adormecer, em sossegar para poder descansar a cabeça e o corpo.

Será que estas pessoas nunca, em momento algum, são capazes de pensar que, muito possivelmente, as crianças não dormem, choram mais, gritam, fazem mais birras (que têm todo o direito a fazê-las pois é uma forma de demonstrarem o que estão a sentir), brincam menos, estão mais caladas, mais sozinhas, mais tristes, mais irritadas e pior que qualquer outra coisa, mais infelizes numa idade onde não é suposto conhecer o significado dessa palavra… porque os pais são umas bestas?
Claro que nunca pensaram nisto.
Para isso é preciso ter noção, bom senso, inteligência emocional e amor para dar. É preciso ser-se feliz, não ter no coração lugar para outra coisa que não o amor pela família e pelos filhos, não sobrando qualquer espaço para a amargura, o rancor, a aspereza.

Crianças menos confiantes numa idade em que precisam tanto de confiança para conseguirem avançar no seu crescer.

Crianças mais inseguras numa idade em que a segurança é tudo aquilo que precisam de sentir, particularmente dentro da própria casa.

Acreditem que ouço, todos os dias, absolutamente todos os dias, um festival de anormalidade e de estupidez que me deixa furioso, revoltado, triste, desgostoso, acabrunhado e envergonhado.

Já aqui falei sobre isto mais do que uma vez, e falarei ou escreverei sobre isso as vezes necessárias, porque enquanto as pessoas não enfiarem nas suas cabecinhas que a forma como educam e tratam as crianças desde que eles nascem é determinante para a formação do carácter destes futuros homens e mulheres, esta realidade e este pensamento assente na sorte ou no azar, na boa ou na má disposição de Deus para com as crianças, haverá sempre quem insista em demitir-se da responsabilidade que o ser humano tem para com as vidas que traz a este mundo de loucos.

Se formos agressivos, bruscos, intempestivos e em última análise, violentos para com uma criança, estamos a contribuir decisivamente para a sua má formação, para deformar eternamente a sua ideia de vida, de liberdade, de respeito, de educação, os seus valores, os seus princípios, tudo.

Estamos activamente a hipotecar-lhes o futuro porque não temos paciência e porque gritar é mais fácil, é tão mais fácil. É tão mais fácil ser-se uma besta do que dar um abraço a alguém, não é? É tão mais fácil mentir do que dizer a verdade, não é?
É tão mais fácil ser bruto em vez de ser pai. Mas… de que vale uma vida vivida assim? Não sei, mas tenho muitas dúvidas…

Até quando é que vamos continuar a dizer que ter filhos bem educados, bem comportados, felizes e amados é uma questão de sorte?

Sorte? Sorte é jogar 5 números e 2 estrelas num boletim, acertar em tudo e ganhar uma batolada de dinheiro que nem se possa contar. Isso é que é sorte. Agora sorte com os filhos? Tenham paciência e juízo, sim?

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