A boa vontade dos desconhecidos que faz do Mundo um lugar melhor

Manhã de Domingo, de sol, brilhante como se quer uma manhã de Domingo de ☀️, de Primavera. Alva. Meiga. Linda.

O dia arranca quase bem. Sim, quase bem.

Vou buscar a Leonor à cama dela e trago-a para junto de nós. Como acontece todos os dias. E ela ali fica, entre nós, entre o dormitanço e a brincadeira.

Atira-se ao meu pescoço para me abraçar com uma força e vontade como nunca tinha feito… pelo menos na nossa cama, sim, ali nunca o tinha feito assim. Com tamanha meiguice. Com tamanho carinho. Com tamanho amor.

Só que há qualquer coisa que não está bem com a mãe. Percebo-o ainda deitado e de persianas corridas para baixo.

A Ana mal se mexe na cama.

Geme de incómodo e desconforto.

Só pode ser uma daquelas enxaquecas dilacerantes. Levanta-se e corre para a casa de banho, não consegue conter as náuseas e os vómitos que se multiplicam.

Apressamo-nos a vestir e a levantar para seguirmos rapidamente para o Hospital. Mas é preciso deixar a bebé com a avó.

Ligo. Acordo a minha sogra que se prontifica de imediato a ajudar.

Não é de todo a melhor forma de começar uma manhã de Domingo.

Chego rápido a casa dos meus sogros e rapidamente rumamos ao Hospital da Luz.

Só que é preciso parar o carro pelo caminho! No meio da estrada. Da via rápida.

Os vómitos são verdadeiramente uma coisa do demónio!

Encosto à berma e a Ana sai. Debruça-se sobre o rail e tenta aguentar-se perante a força dos vómitos que a fazem arquear o corpo sofridamente. Pobrezinha.

Nisto vejo um carro parar à minha frente. 4 piscas. Sai de lá um tipo de calções, sapatilhas e casaco impermeável, que se apressa a dirigir-se à minha janela.

“Bom dia. Sou bombeiro. Posso ajudar em alguma coisa?” Não é preciso, meu caro amigo (porque tenho de chamar amigo a quem tem tamanho gesto). Vamos já para o Hospital.

“Ok. As melhoras e um bom dia”

Pergunto-me tantas vezes porque razão alguém interrompe o normal curso do seu dia para ajudar alguém que nunca viu na vida? Alguém que pode estar “apenas” mal disposto, de ressaca, com uma gastroenterite… sei lá.

Há tanta razão diferente para alguém vomitar… Não sei. Sei que o fazem.

Que o fazemos. Também eu já o fiz.

E sei que, sobretudo isso, que o mundo é um lugar bem melhor por ter nele gente assim. Que pára. Que pensa rápido. Que ajuda. Que tenta ajudar mesmo que a ajuda não seja necessária. Porquê?

Não sei. Ou melhor, sei porque é que o faço, mas não consigo entender porque é que os outros o fazem.

Preferia ouvi-los dizer de viva voz: porque sim. Porque a vida vale muito. Seja a minha, de um familiar, de um amigo ou de um mero desconhecido que acaba de encostar o carro na berma da auto estrada.

E por isso mesmo, muito obrigado, caro amigo. Muitíssimo obrigado. Que o resto do dia te corra bem.

Quanto à nós, nós estamos bem. Estamos juntos. Tomamos (sempre) conta um do outro.

A Ana tem-me a mim – para além de uma enxaqueca grotesca – e eu tenho-a a ela. Sempre. Onde quer que seja. Porque não concebo, não concebemos a existência de outra forma.

E quem tem isto… não tem tudo, mas tem muito. Se tem. Se tenho. Se temos.

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