“Papá, ti’ou a falda!”

Pois tirou, mas já lá vamos.
22:00.
Quarto escuro como breu.
Mãe a passar a ferro.
Pai a arrumar a cozinha… depois de ter ido deitar a menina… que, pouco menos de 2 minutos após de ter ficado na cama, já está novamente a palrar sozinha no quarto.

A certa altura… silêncio!
Franzo o sobrolho e penso… será que adormeceu?!
Rapidamente ela se apressa a aniquilar-me as vãs e inusitadas esperanças e começa a chamar por mim. Uma. Duas. Três. Quatro vezes.
Rendo-me às evidências e tiro o pano da loiça de cima do ombro para me encaminhar então para o quarto de Sua Excelência, pela terceira vez, e tentar perceber o que se passa agora.

Chego e pergunto:
– O que foi agora, Leonor?
Papá, ti’ou a falda… diz ela lá do fundo da sua cama.

O meu cérebro demora 1 ou 2 segundos a processar a informação.
Na dúvida, decido acender a luz, porque a declaração me soa a algo em que não quero crer!! Conforme se faz luz no quarto, ela repete a frase:

Papá, ti’ou a falda, papá! Ti’ou a falda!

Agora não havia como enganar ou não perceber o que a rapariga estava a dizer.
Congelei durante uma fracção de segundo que me pareceu 1 hora.

Viro-me, olho para a cama e preparo-me para um cenário dantesco de paredes pintadas, pinturas rupestres feitas num castanho badalhoco, já estão a ver o hipotético cenário de horror, certo? Daqueles que, regra geral, só acontece aos outros… ou nos filmes!
Mas foi isso que me ocorreu quando me virei. Olho para ela por entre as grades e vejo-a a rir com aquele característico ar de gozo de quem me está a dizer com os olhos, já arranjei a bonita, papá!

Felizmente a fralda estava sequinha – tinha acabado de a pôr antes de a deitar – e sem qualquer vestígio de qualquer fim do mundo que eu estivesse a antever.
A cama estava igualmente seca e tudo não passou de uma espécie de momento à lá Ally McBeal, onde vi tudo a acontecer, mas depois nada aconteceu…

Fiz cara feia. E ela ali, a rir, com aquele ar de gozo e insolência tão absolutamente adoráveis. De fralda seca nas mãos. A cama igualmente seca. E eu a ter de fazer cara feia, de quem já não estava a gostar da brincadeira e queria que ela percebesse isso mesmo. Que pese embora o facto de não ter havido nenhum incidente nuclear naquele quarto, não tinha gostado nada que ela tivesse tirado a fralda. Que aquilo não se faz.
Voltei a vestir-lhe a fralda. Disse-lhe que agora chegava de brincadeira e era hora de fazer ó ó.

– Estás-me a ver a rir, Nonô? Estás?!
E ela a rir, com o cabelo desgrenhado, a olhar-me de soslaio.
– Vira-te para baixo e vamos a dormir, se fazes favor. Até amanhã, sua palerma.
– Até amanhã, papá! Bom sonhos…!

E um pai desmonta-se.

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