A impiedosa brigada anti-chucha

Ando para escrever sobre isto há meses, mas como a coisa se tem acentuado mais nos últimos tempos, eis que chega finalmente a hora de deitar os dedos ao teclado e começar então a expiar o que me vai na alma relativamente à chucha da minha filha. Ou melhor, relativamente à impiedosa brigada anti chucha.

Antes de mais chamo a atenção para última frase do 1º parágrafo: “chucha da minha filha“.
Antes que se arrelie faço um disclaimer só para lhe dizer que resolvi pedir a sua atenção para esta frase em particular, por uma razão muito simples. Porque a chucha é dela e a filha é minha. Pronto. Era isto.
É que aparentemente isto é ligeiramente difícil de perceber e não têm sido poucas vezes em que as pessoas parecem absolutamente determinadas em esquecer todas as regras da boa educação e partir para a ignorância para cima de uma criança de 2 anos e meio.

Qual é o vosso problema com a chucha da minha filha?

Faço esta pergunta de forma honesta e humilde, porque efectivamente não consigo perceber o que move tanta gente contra a chucha dos bebés dos outros. Talvez seja defeito meu, mas não consigo mesmo perceber.
E se estou a escrever isto é porque já ouvi coisas tão ridículas que algumas têm mesmo de conhecer a luz do dia para ficarem registadas para a posteridade.

Portanto, depois da saga do “não dá beijinhos? Ai que menina tão feia!” eis-nos então chegados às incríveis pérolas ditas a uma criança de 2 anos e pouco, apenas e tão somente porque usa chucha.
Deixo aqui as dez coisas mais absurdas que já ouvimos desde que a pobre coitada da criança usa chucha (começou aos 4 meses):

  1. “Uma menina tão bonita com uma chucha tão feia.” 
  2. “Ficas tão feia de chucha!”
  3. “Vais ficar com os dentes tortos”
  4. “Isso dá cabo dos dentes todos”
  5. “Dá cá a chucha que eu dou-te uma prenda”
  6. “2 anos e ainda usa chucha? Ai que coisa tão feia”
  7. “Ahhh… uma carinha tão linda com uma chucha tão feia”
  8. “Tão bonita… só é pena é usar chucha”
  9. “Dás-me a tua chucha para eu mandar para o lixo?”
  10. “Eu não falo com meninas com chucha” (e se ela conseguisse responder diria qualquer coisa como: deves julgar que eu me importo muito com isso. Também não quero falar contigo. Eu não falo com estranhos!)

E estas são apenas as mais comuns… e absurdas… que já temos ouvido, na rua, de pessoas que ou não a conhecem, ou que raramente a vêem, ou que a vêem com frequência e talvez por isso se achem no direito de dizerem aquilo que bem lhes apetece.

Caríssimos membros da brigada anti chucha, agora vai falar-vos um pai determinado e arreliado com toda esta perturbante situação.

Já imaginaram o que seria ouvir este tipo de perguntas e frases abjectas quando acendem um cigarro; quando levam mais uma vez à boca uma garrafa de cerveja; não lavam os dentes e o vosso hálito cheira a fossa séptica; quando se esquecem de botar desodorizante; quando não tomam banho e no final de um dia de trabalho já emana dos vossos corpos aquele… como é que eu hei-de dizer isto… aquele FEDOR aterrorizador e nojento; quando arrotam à mesa; quando vestem roupa que… enfim… ou quando estão simplesmente sentados num café, seja lá com quem for, a comer uma torradinha e a encher copiosamente os dedos de manteiga? Pois… não seria muito agradável, pois não?

É isto que se passa com a minha filha.
A criança anda sempre na sua, sem chatear ninguém.
Mas a brigada anti-chucha parece ter tudo isto controlado com membros incautos e à paisana em cada esquina.
A cada nova ida ao café onde diariamente vamos comprar pão; a cada entrada num novo restaurante para almoçarmos… lá está um ou uma activista, excelso defensores do anti chuchismo, prontinho para vir infernizar a vida da miúda, única e exclusivamente porque a rapariga quer usar chucha e porque os irresponsáveis dos pais não arranjam meio de pôr fim a esta inacreditável alarvidade.
De facto há gente que nunca está bem e isto vem por etapas.
Não acreditam? Eu explico.

As brigadas

Primeiro foi a brigada anti colo.
“Tu ainda a adormeces ao colo? Vai ficar cheia de manhas!” (Dorme sozinha no seu quarto desde os 4 meses e dorme a noite inteira desde os dois. Há quase meio ano que pede para ir para a cama e recusa quase de imediato o colo para dormir). Como se pode perceber o colo fez-lhe mesmo muito mal e estamos com medo que ela chegue aos 18 anos e queira adormecer ao nosso colo nas noites em que chegar triste ou bezana da rua.

Seguiu-se a brigada anti maminha… sobre a qual a Ana falou (e bem) na altura.

Depois foi a história de não dar beijinhos a ninguém, dando assim origem à brigada do beijinho.
Seguiu-se a história do: “como assim ela não come/gosta de doces?” como se toda e qualquer criança nesta vida tivesse de enfardar doces, chupas, rebuçados, chocolates e afins para ser feliz, ou só para ser mais ser humano.
E agora é a vez da chucha.
Pai/Mãe tem de ouvir com cada coisa…

No fundo… a questão é simples e torna-se tão mais difícil de entender quando se pensa nela devagar, devagarinho…

Porque carga de água é que as pessoas sentem a liberdade de dizer coisas feias a uma criança tão pequena?
Que espécie de sentimento invade estas pessoas, levando-as a abandonar a sua ocupadíssima existência para virem incomodar a vida dos outros?
Não consigo entender. Já eu não faço qualquer consideração sobre os filhos dos outros. Porquê? Porque os filhos são deles. E isso chega-me para que me resuma à minha insignificância.

Contudo, isto torna-se cada vez mais irritante porque acontece com uma frequência quase semanal.
Chega a não haver semana alguma em que não tenhamos de ouvir isto.
E depois, claro, por vezes tem de sair cara feia ou resposta torta. Ninguém é de ferro e a paciência tem limites.
Até porque, as pessoas fazem uma coisa ainda mais pior (sim, é de propósito), que é TOCAR, senhores, tocar na chucha da miúda, ou mesmo tentar tirar-lha da boca… com as mãos… por vezes imundas, acabadinhas de apagar um cigarro no caixote do lixo. Mas será que isto não tem fim?

A Liberdade não se fez para isto, meus caros.
A Liberdade não existe para que possamos invadir a privacidade dos outros, em particular das crianças, a fim de lhes soprarmos anormalidades aos ouvidos, diante dos olhos (esperando os pais que os filhos façam ouvidos de mercador) incrédulos dos pais que, não poucas vezes, nem sequer sabem bem como hão-de reagir.

Por isso, senhores das brigadas, que é como quem diz, brigadeiros, aqui fica um conselho muito simples e que não me parece muito difícil de seguir: que tal, preocuparem-se tão somente com as vossas alegres vidas, hum? Pode ser?

Termino com um apelo muito sério: depois do “deixem as maminhas em paz” da Ana, peço-vos encarecidamente para “deixarem a chucha da criança em paz”… que ela não morde. Ok?

E era isto.

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